Durante muito tempo, venderam para as meninas uma história curiosa: um dia, um homem especial apareceria, enxergaria o que ninguém mais enxergou, se apaixonaria por elas e mudaria suas vidas para sempre.

Ele seria bonito, corajoso, apaixonado, bem resolvido e, de preferência, saberia o que fazer em todas as situações. Afinal, para isso serviam os príncipes encantados, não é mesmo?

A menina crescia assistindo aos filmes, ouvindo histórias e imaginando como seria o dia em que alguém olharia para ela como se fosse a mulher mais extraordinária do mundo.

Até aí, tudo bem. Quem não gosta de se sentir especial?

O problema começa quando ela cresce, mas continua esperando que alguém apareça para confirmar que ela é especial.

A princesa passa a vida fazendo teste para o papel principal

Sem perceber, muitas mulheres aprendem a olhar para si mesmas pelos olhos de quem pode desejá-las.

Será que estou bonita o suficiente? Será que sou interessante? Será que ele vai gostar de mim? Será que estou sendo exigente demais? Será que, se eu demonstrar o que sinto, ele vai perder o interesse?

Olha o tamanho da entrevista de emprego para uma vaga que nem sabemos se queremos ocupar!

E o mais curioso é que, nessa seleção, a mulher costuma ser a candidata e o homem, o avaliador. Ele observa, decide, escolhe. Ela espera o resultado.

Se ele liga, ela fica feliz. Se ele assume o relacionamento, sente que venceu. Se ele a apresenta como namorada, talvez finalmente se sinta importante. E, quando ele a pede em casamento, a história parece alcançar aquele momento tão esperado: ela foi escolhida.

Mas escolhida para quê? Para viver um amor ou para finalmente acreditar que merece ser amada?

Essa pergunta pode incomodar. E talvez seja justamente por isso que precisamos fazê-la.

O perigo de ser escolhida como prova de valor

Não há nada de errado em querer ser desejada. É gostoso saber que alguém nos admira, sente saudade, faz planos conosco e nos olha com aquele brilho que dispensa legenda.

O problema é quando a escolha do outro passa a valer mais do que a nossa própria escolha.

Porque, nesse lugar, ser escolhida se transforma em conquista pessoal. E perder alguém pode parecer uma prova de fracasso.

A mulher começa a tolerar situações que não gostaria de viver. Ignora incompatibilidades, negocia limites, diminui suas necessidades e encontra justificativas para comportamentos que a machucam.

Às vezes, não está tentando salvar o relacionamento. Está tentando salvar a ideia de que foi a mulher escolhida.

E abandonar essa ideia pode doer tanto quanto abandonar a própria relação.

É assim que o sonho romântico, quando tratado como uma regra de vida, pode se transformar em uma armadilha. Não porque o amor seja ruim, mas porque nenhuma história de amor deveria exigir que uma mulher se abandone para continuar sendo a protagonista.

E se o príncipe não for tudo isso?

Vamos combinar uma coisa: o príncipe encantado também foi beneficiado por uma campanha de marketing extraordinária.

Ele chega, conquista, promete, salva a mocinha de alguma enrascada e, no final, os créditos sobem. Quase nunca vemos a planilha das tarefas domésticas, a conversa difícil sobre dinheiro, os dias de mau humor, a divisão dos cuidados ou o que acontece quando duas pessoas precisam construir uma vida real.

O conto termina justamente onde a vida começa.

Na vida real, uma pessoa pode ser encantadora no início e incompatível com você depois. Pode despertar desejo sem oferecer parceria. Pode amar você e ainda assim não saber construir o tipo de relação de que você precisa.

E você também pode gostar de alguém sem que essa pessoa seja a escolha certa para a sua vida.

Isso não faz de ninguém um vilão. Faz de nós pessoas tentando descobrir, entre sentimentos e expectativas, o que realmente funciona.

O amor não precisa ser perfeito. Precisa ser possível, recíproco e respeitoso. Precisa permitir que duas pessoas existam inteiras, sem que uma tenha de desaparecer para a outra se sentir importante.

Você também tem o direito de avaliar o candidato

Imagine se, desde meninas, tivéssemos ouvido mais perguntas como estas:

Você gosta dele ou gosta de saber que ele gosta de você?

Você se sente livre para ser quem é quando está com ele?

Você admira a maneira como ele trata as pessoas?

Você consegue discordar sem sentir medo de perder o amor dele?

Você gosta da vida que está construindo ao lado dessa pessoa?

Você escolheria esse relacionamento se não precisasse provar nada a ninguém?

Percebe a mudança?

A mulher deixa de ser alguém que espera receber uma aprovação e passa a ser alguém que participa da decisão. Ela não está ali para convencer um homem de que merece amor. Está ali para descobrir se existe amor, respeito, desejo, compatibilidade e vontade de construir algo juntos.

Ela também observa. Também avalia. Também pode dizer não.

E pode, inclusive, gostar muito de alguém e decidir que não quer aquela vida.

Isso não é arrogância, frieza ou excesso de exigência. É entender que sentir amor por uma pessoa não obriga ninguém a escolher um relacionamento com ela.

Talvez o final feliz comece quando a princesa sai da fila

Não precisamos ridicularizar os contos de fadas, abandonar o romantismo ou fingir que não queremos flores, declarações, pedidos de casamento e alguém que nos olhe como se o mundo tivesse ficado mais bonito.

Podemos querer tudo isso.

Mas também podemos querer muito mais: uma pessoa que nos respeite quando ninguém está olhando, que divida responsabilidades, que converse quando as coisas ficam difíceis e que não confunda amor com posse, silêncio ou obediência.

Podemos desejar ser amadas sem transformar a conquista desse amor em uma competição com outras mulheres.

E podemos entender que a ausência de um relacionamento não significa ausência de valor.

Você não é menos mulher porque ninguém a escolheu. Não fracassou porque um relacionamento terminou. Não precisa aceitar qualquer história só para não ficar de fora daquela fotografia de casal que parece confirmar que todo mundo encontrou seu final feliz.

A vida não é uma fila na qual algumas mulheres são aprovadas e outras ficam esperando a próxima oportunidade.

Talvez a grande virada não seja encontrar o príncipe perfeito.

Talvez seja deixar de acreditar que precisamos ser escolhidas para que nossa história tenha valor.

Porque, no fim das contas, a pergunta mais importante nunca foi apenas se alguém quer ficar com você.

É também esta: entre todas as vidas que você poderia construir, você escolheria viver esta ao lado dessa pessoa?

E, se a resposta for não, você continua tendo uma vida inteira para viver.

Com ou sem coroa.

Entre o surto e a sensatez, a gente conversa.


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