Você cresceu, paga boletos, resolve problemas e provavelmente tem uma lista de tarefas que se reproduz sozinha. Mas e aquela menina que sonhava em viver tantas coisas? Será que ela ainda está esperando você ter tempo?
Sabe aquela menina que você foi?
Aquela que imaginava como seria a vida adulta, sonhava com viagens, roupas incríveis, uma profissão dos sonhos, aventuras cinematográficas e uma vida que parecia ter trilha sonora?
Pois é. Ela cresceu.
E, dependendo do dia, está aí dentro de você tentando entender por que a grande aventura da vida adulta envolve comparar preços de detergente, lembrar de pagar a internet e ficar genuinamente feliz quando encontra uma promoção de papel higiênico.
Não era exatamente esse o roteiro que a gente tinha imaginado, né?
A adolescência passou. Vieram os estudos, o trabalho, os relacionamentos, os filhos para algumas de nós, as responsabilidades e aquela habilidade assustadora de resolver cinco problemas ao mesmo tempo enquanto pensa no que vai fazer para o jantar.
De repente, ser adulta virou isso: funcionar.
Acordar. Resolver. Produzir. Cuidar. Pagar. Organizar. Repetir.
E, no meio de tanta eficiência, corremos o risco de esquecer uma coisa muito importante: a gente não nasceu só para fazer a vida funcionar. A gente também nasceu para viver.
A adulta responsável está ótima. Mas cadê a menina sonhadora?
Vamos combinar que ser responsável tem suas vantagens. Afinal, alguém precisa pagar as contas e garantir que a geladeira não seja composta exclusivamente por um limão solitário e três potes misteriosos.
O problema começa quando a responsabilidade ocupa a casa inteira e não deixa nem um banquinho para a diversão sentar.
A gente passa a achar que precisa merecer o descanso, justificar o passeio, planejar a alegria e esperar o momento ideal para fazer alguma coisa que deseja há anos.
“Quando eu tiver mais dinheiro, eu viajo.”
“Quando estiver menos ocupada, começo a dançar.”
“Quando emagrecer, compro aquela roupa.”
“Quando tudo estiver organizado, eu faço aquilo que sempre quis.”
Minha amiga, tenho uma notícia: a vida não costuma ficar completamente organizada. Você arruma uma gaveta e aparecem três problemas novos. Você resolve uma pendência e a vida abre outra aba no navegador.
Se a gente esperar tudo ficar perfeito para começar a viver, corre o risco de passar a vida inteira se preparando para ela.
E olha que ironia: ficamos tão ocupadas construindo uma vida boa que, às vezes, não sobra tempo para aproveitar a vida que construímos.
E os sonhos que você deixou guardados?
Talvez você quisesse aprender a tocar violão. Fazer uma viagem sozinha. Dançar sem se preocupar com quem está olhando. Escrever um livro. Ter uma coleção de alguma coisa completamente inútil, mas que faz seus olhos brilharem.
Talvez quisesse conhecer um lugar específico, fazer um curso por pura curiosidade, usar uma roupa que sempre achou linda ou simplesmente passar uma tarde fazendo absolutamente nada, sem transformar o descanso em uma atividade com metas e indicadores de desempenho.
Nem todo sonho precisa virar uma grande conquista para entrar no currículo da vida.
Alguns sonhos só precisam acontecer.
E sabe o que é mais bonito? Você não precisa realizar exatamente tudo o que desejava aos 12 ou aos 16 anos. Você pode ter mudado de ideia. Pode ter descoberto outros interesses. Pode olhar para aquele sonho antigo e pensar: “Meu Deus, ainda bem que não deu certo!”
Tudo bem também.
O objetivo não é voltar a ser quem você era. É descobrir o que daquela menina ainda faz sentido para a mulher que você se tornou.
Porque crescer não deveria significar abandonar todas as versões anteriores de nós mesmas.
Não precisa pedir demissão da vida adulta
Calma. Ninguém está sugerindo que você abandone o emprego, coloque as contas no débito automático da esperança e compre uma passagem só de ida para a liberdade.
A gente sabe que a realidade existe. E ela, inclusive, manda cobrança.
Mas talvez seja possível fazer pequenos acordos com a rotina.
Aquela vontade de dançar? Experimente uma aula.
O desejo de viajar? Comece pesquisando destinos e guardando um pouquinho por mês.
A vontade de escrever? Abra um documento e escreva uma página.
Quer usar uma roupa diferente? Vista. O mundo já tem problemas suficientes para você ainda precisar de autorização de uma plateia imaginária.
Quer brincar mais, rir mais, experimentar coisas novas? Não espere uma ocasião especial para começar.
Às vezes, a realização de um sonho não começa com uma mudança radical. Começa com uma terça-feira comum em que você decide parar de adiar uma coisa que importa.
Pequeno? Sim. Mas tem sonho que passa anos esperando justamente por esse primeiro passo.
A menina que você foi não precisa ter vergonha da mulher que você virou
Existe uma cobrança silenciosa para que a mulher adulta seja sensata, madura, produtiva, equilibrada e, de preferência, não dê trabalho a ninguém.
Ela pode sonhar, desde que seja um sonho viável. Pode se divertir, desde que não atrapalhe as obrigações. Pode querer alguma coisa só para si, desde que explique muito bem por que aquilo é necessário.
Como se toda vontade precisasse apresentar uma planilha de benefícios antes de ser aprovada.
Mas você pode ser uma mulher madura e continuar encantada com coisas bobas. Pode cuidar da família e querer uma aventura só sua. Pode trabalhar seriamente e rir até chorar de uma piada idiota. Pode ter responsabilidades e ainda sentir aquele frio na barriga diante de uma novidade.
Isso não faz de você infantil.
Faz de você alguém que não confundiu maturidade com falta de entusiasmo.
A vida adulta pode ensinar prudência sem roubar a curiosidade. Pode ensinar limites sem matar a espontaneidade. Pode nos tornar mais conscientes sem transformar cada prazer em uma tarefa de produtividade.
Você não precisa escolher entre ser uma mulher responsável e uma mulher que sabe aproveitar a vida.
Dá para ser as duas. Inclusive no mesmo dia, embora a logística às vezes seja complicada.
Antes que a vida vire só uma lista de tarefas…
Faça uma pergunta a si mesma: o que eu queria muito viver quando era menina ou adolescente e ainda tenho vontade de experimentar?
Não precisa responder com uma meta grandiosa. Pode ser algo simples, divertido, diferente ou até meio ridículo aos olhos dos outros.
Aliás, principalmente se for uma coisa que faz você sorrir só de imaginar.
Escreva esse desejo. Escolha um. Pense no menor passo possível para aproximá-lo da realidade.
Não precisa fazer tudo este mês. Você já tem boletos suficientes sem transformar seus sonhos em mais uma fonte de cobrança.
A ideia não é criar uma nova obrigação chamada “ser feliz”. É abrir espaço para aquilo que faz você se sentir viva.
Porque existe uma diferença enorme entre envelhecer e endurecer. Entre amadurecer e perder a capacidade de se surpreender. Entre construir uma vida estável e viver no piloto automático.
E, se você já percebeu que está um pouquinho robótica, não precisa se culpar. Talvez você só esteja cansada de dar conta de tanta coisa. Às vezes, a menina sonhadora não desapareceu. Só está esperando a mulher adulta terminar de resolver tudo.
O problema é que esse “tudo” parece não acabar nunca.
Então, que tal deixá-la sair um pouquinho hoje?
Você não precisa voltar a ser aquela menina. Só não precisa abandonar tudo o que fazia os olhos dela brilharem.
A vida já tem seriedade suficiente. Não vamos transformar a existência inteira em uma reunião que poderia ter sido um e-mail.
E, por favor, antes de virar aquela adulta que responde “vamos marcar” sabendo que nunca vai marcar, realize pelo menos um dos seus sonhos.
Nem que seja pequeno. Nem que seja tarde. Nem que ninguém entenda.
A menina que você foi não precisa decidir sua vida inteira. Mas merece, pelo menos, ser convidada para participar dela.
E aí, me conta: qual sonho da sua infância ou adolescência ainda mora aí dentro de você?
Vamos tirar alguns do modo espera?
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