Tem dia em que a gente quer conquistar o mundo. Em outros, quer que o mundo pare de falar com a gente por cinco minutos. E tem aqueles em que nem nós mesmas entendemos muito bem o que está acontecendo. Será que são os hormônios ou só a vida adulta fazendo seu trabalho?

Resolvo problemas, tenho ideias, faço planos e penso que, se me derem mais umas duas horinhas, sou capaz de organizar até a política econômica do país.

Aí vem outro dia e eu não quero organizar nem a gaveta das meias.

Não quero conversar, não quero decidir o jantar e, se alguém me perguntar o que eu tenho, existe uma possibilidade real de eu responder “nada” enquanto minha cara escreve uma tese de doutorado sobre tudo o que tenho.

Hahahaha! Quem nunca?

Mas espera. Será que são os hormônios? Será que é cansaço? Será que é a vida adulta, essa maravilhosa experiência em que a gente paga contas para poder continuar pagando contas?

A resposta pode envolver um pouco de tudo.

O fato é que o corpo feminino passa por mudanças ao longo do ciclo menstrual, e os hormônios participam dessa história. Algumas mulheres percebem essas mudanças de maneira muito clara. Outras quase não notam diferença. E nenhuma de nós precisa apresentar um relatório mensal sobre o próprio humor para provar que está tudo bem.

Vamos entender o que acontece por aqui. Porque, se é para conviver com esse corpo maravilhoso e cheio de particularidades, pelo menos temos o direito de conhecer o manual de instruções. Mesmo que ele tenha sido escrito em uma língua que ninguém traduziu direito.

Primeiro: o que está acontecendo dentro da gente?

O ciclo menstrual começa no primeiro dia da menstruação e termina no dia anterior à próxima. E não, ele não precisa durar exatamente 28 dias. Esse é um exemplo de referência, não uma regra que todos os ovários do planeta assinaram em cartório.

Durante o ciclo, hormônios como estrogênio e progesterona variam. O cérebro também participa desse processo, enviando sinais que ajudam os ovários a funcionar e a preparar o organismo para uma possível gravidez.

Parece uma operação muito bem organizada, não é?

E é mesmo. O problema é que a gente gostaria de receber uma notificação avisando:

“Prezada usuária, nos próximos três dias poderá ocorrer redução da paciência, aumento do apetite e vontade de cancelar todos os compromissos. Deseja ativar o modo silencioso?”

Seria útil. Eu usaria.

Mas o corpo não funciona com tanta previsibilidade. Por isso, vamos conhecer as fases sem acreditar que todas as mulheres precisam sentir a mesma coisa em cada uma delas.

1. Menstruar: porque o útero também tem seus compromissos

A menstruação acontece quando o revestimento interno do útero descama e é eliminado pela vagina junto com sangue, porque não houve gravidez naquele ciclo.

Esse processo é natural. O que nem sempre é maravilhoso é o conjunto de experiências que pode vir acompanhado dele.

Tem mulher que sente cólica, dor de cabeça, cansaço, desconforto intestinal e inchaço. Tem mulher que continua a rotina normalmente. E tem aquela que olha para a própria agenda e pensa: “Eu realmente marquei tudo isso para esta semana? Quem foi a irresponsável que organizou minha vida?”.

Às vezes, fomos nós mesmas, em um momento de otimismo.

A intensidade dos sintomas varia muito. E não precisamos transformar sofrimento em medalha de honra. Se a dor é forte a ponto de atrapalhar o trabalho, os estudos ou as atividades do dia a dia, vale procurar avaliação médica.

Cólicas intensas não são um teste de resistência feminina.

E o humor? Algumas mulheres sentem mais cansaço ou preferem ficar quietinhas. Outras não percebem diferença nenhuma. Não existe uma regra determinando que toda mulher menstruada precisa estar triste, irritada ou com vontade de comer chocolate escondida no banheiro.

Aliás, comer chocolate porque você gosta é perfeitamente diferente de acreditar que precisa dele por determinação do Ministério dos Hormônios.

Uma coisa é vontade. Outra é obrigação biológica. Hahahaha!

2. Depois da menstruação: será que a disposição voltou?

Conforme o ciclo avança, o estrogênio tende a aumentar. Esse hormônio participa de várias funções do organismo, incluindo a preparação do revestimento do útero para uma possível gravidez.

Algumas mulheres percebem que a disposição melhora nessa fase. Sentem mais energia, mais vontade de fazer exercícios ou mais facilidade para retomar a rotina.

É como se a vida voltasse a caber dentro da agenda.

Mas não quero criar falsas expectativas. Você pode estar nessa fase e continuar cansada, sem vontade de fazer absolutamente nada além do necessário.

Porque, convenhamos, também existe a possibilidade de você estar dormindo pouco, trabalhando demais, cuidando de mil coisas e tentando lembrar se já descongelou alguma coisa para o jantar.

Nem tudo é hormonal, minha filha. Às vezes, você só precisa de férias.

E essa é uma informação importante: o ciclo começa no primeiro dia da menstruação, e a fase que vai desse dia até a ovulação é chamada de fase folicular. Portanto, a menstruação acontece dentro dessa fase.

Pronto. Já aprendemos alguma coisa e nem precisamos de jaleco.

3. Ovulação: o famoso período fértil

Em algum momento do ciclo, um dos ovários libera um óvulo. É a ovulação.

Ela costuma acontecer depois de um aumento do hormônio luteinizante, o LH, mas a data varia de uma mulher para outra e até de um mês para outro.

Algumas percebem mudanças no muco vaginal, que pode ficar mais transparente e elástico. Outras sentem um desconforto leve em um dos lados do baixo ventre. E há quem não perceba nada.

O corpo não envia um comunicado oficial. Uma pena, porque eu gostaria de receber avisos sobre várias coisas, começando pela localização das chaves de casa.

Agora, vamos falar de uma curiosidade que aparece bastante por aí: dizem que a mulher fica mais bonita, mais atraente e mais sedutora durante a ovulação.

Existem pesquisas sobre possíveis mudanças associadas ao ciclo, mas não dá para afirmar que todas as mulheres ficam mais bonitas ou irresistíveis nessa fase.

Ainda bem, porque seria mais uma obrigação para colocar na agenda: ovular, trabalhar, pagar contas e ficar irresistível até sexta-feira.

Se você estiver se sentindo maravilhosa, aproveite. Se não estiver, também não precisa esperar a próxima fase para gostar de si mesma.

E um cuidado importante: quem não deseja engravidar não deve confiar apenas em aplicativos para prever os dias férteis. A ovulação varia, e a previsão do calendário não é um método contraceptivo confiável por si só.

4. A TPM chegou. Alguém avisou a família?

Depois da ovulação, começa a fase lútea. Nela, a progesterona aumenta, e o estrogênio também participa das mudanças hormonais. Se não houver gravidez, os níveis desses hormônios caem perto do final do ciclo, preparando o organismo para uma nova menstruação.

É nessa fase que algumas mulheres apresentam a famosa TPM, a tensão pré-menstrual.

Pode aparecer inchaço, sensibilidade nas mamas, cansaço, alterações no sono, mudanças no apetite, irritabilidade ou tristeza.

E tem gente que sente tudo isso de forma muito intensa.

Mas vamos conversar sobre uma coisa?

A TPM não pode virar uma espécie de passe livre para desconsiderar tudo o que uma mulher fala.

Imagine que você está incomodada com alguma coisa, tenta explicar e escuta:

“Ah, deve ser porque você está para menstruar.”

Pronto. O assunto morreu, o argumento foi ignorado e a pessoa que fez a observação provavelmente acredita que resolveu um conflito com uma aula improvisada de ginecologia.

Não resolveu, querido.

Os hormônios podem influenciar a maneira como nos sentimos, mas isso não significa que nossas preocupações sejam inventadas ou que nossas opiniões percam a validade em determinada semana do mês.

Às vezes, estamos mais sensíveis. Às vezes, estamos cansadas. E, às vezes, alguém está sendo inconveniente mesmo.

As três coisas podem acontecer ao mesmo tempo. A vida não costuma separar os problemas por categoria.

Se os sintomas pré-menstruais são muito intensos, se repetem e prejudicam sua rotina, vale procurar avaliação profissional. Existe uma condição chamada transtorno disfórico pré-menstrual, que pode provocar sintomas emocionais importantes e merece tratamento adequado.

Não precisamos aceitar sofrimento intenso como se fosse uma tradição de família transmitida de geração em geração.

Então, somos reféns dos hormônios?

Não. Mas também não precisamos fingir que eles não influenciam nada.

O humor e a disposição resultam de uma combinação de fatores. Os hormônios podem participar, mas sono, estresse, saúde física, acontecimentos da vida e experiências pessoais também fazem diferença.

Pense na seguinte situação: você dormiu mal, acordou atrasada, derrubou café na roupa e chegou ao trabalho com três mensagens urgentes esperando resposta.

Nesse dia, talvez sua paciência não esteja exatamente em seu auge.

Isso não significa que você perdeu a personalidade. Significa que está vivendo.

E, se tudo isso acontece em uma fase do ciclo em que você também costuma sentir mais cansaço ou irritabilidade, os fatores podem se somar.

Por outro lado, se você anda exausta há semanas, está triste com frequência ou percebe mudanças importantes no corpo, não coloque tudo na conta dos hormônios sem investigar.

Conhecer o ciclo é útil. Culpar o ciclo por tudo é outra história.

Como descobrir o que acontece no seu corpo?

Não precisa transformar sua vida em um laboratório, comprar um caderno com capa de flores e criar um gráfico colorido para cada emoção.

Comece observando.

Quando a menstruação começa? Você costuma sentir cólica? Como está o sono? Percebe mudanças no apetite, na disposição ou no humor? Existe algum padrão que se repete?

Você pode anotar no celular, em um calendário ou em um aplicativo. O importante é registrar o suficiente para perceber tendências, sem ficar fiscalizando cada sensação como se fosse uma ocorrência policial.

Depois de alguns meses, talvez você identifique um padrão. Ou talvez perceba que seus sintomas não seguem uma sequência tão previsível.

As duas coisas são possíveis.

Se houver sintomas que atrapalham sua vida, essas anotações também podem ajudar em uma consulta médica.

E lembre-se: anticoncepcionais hormonais, gravidez, amamentação, ciclos irregulares e perimenopausa podem mudar essa experiência. Não existe um único manual que sirva perfeitamente para todas as mulheres.

E quando os 40 chegam e o corpo começa a mudar de novo?

Se você já passou dos 40 e percebeu mudanças na menstruação, no sono, na disposição ou na temperatura do corpo, talvez esteja se perguntando se os hormônios estão aprontando alguma novidade.

A perimenopausa é a fase de transição que antecede a menopausa. Ela pode começar nessa etapa da vida e provocar alterações no ciclo, ondas de calor, mudanças no sono e outros sintomas.

Mas calma: nem tudo o que acontece depois dos 40 é automaticamente perimenopausa. Cansaço, alterações de humor e mudanças menstruais podem ter outras causas e merecem avaliação conforme a situação.

E eu faço questão de dizer isso porque nós, mulheres, já ouvimos explicações demais que terminam em “é normal, aguenta”.

Nem tudo precisa ser tratado como um incômodo inevitável. Se algo mudou e está prejudicando sua qualidade de vida, vale investigar.

A idade não deveria ser uma sentença para conviver calada com desconfortos.

No fim das contas, não precisamos entender tudo hoje

Talvez você seja daquelas mulheres que percebem cada mudança do ciclo. Talvez nunca tenha notado diferença nenhuma. Talvez esteja tentando descobrir por que seu corpo parece ter atualizado o sistema operacional sem pedir autorização.

Tudo bem.

Conhecer o próprio corpo não significa controlar cada detalhe, nem encontrar uma explicação hormonal para todas as emoções.

Significa perceber o que acontece, respeitar seus limites e procurar ajuda quando alguma coisa não está bem.

E também significa parar de exigir que a gente esteja sempre disposta, produtiva, bem-humorada e pronta para resolver os problemas do mundo.

Tem dia em que vamos render muito. Tem dia em que faremos o essencial. E tem dia em que a maior contribuição para a humanidade será não responder aquela mensagem atravessada enquanto estamos com a cabeça quente.

Amanhã a gente conversa.

De preferência, depois de dormir bem.

Entre o surto e a sensatez, a gente conversa. Até porque, quando o assunto é o corpo feminino, informação boa vale mais do que qualquer palpite sobre o nosso humor.

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