Eu já fui a favor do aborto.
Sim, pasmem! Hahaha.
Pronto. Agora temos assunto para o cafezinho. E, dependendo de quem estiver na mesa, talvez seja bom passar um café mais forte, porque essa conversa promete.
Antes que alguém tire conclusões precipitadas, deixa eu explicar.
Essa era a Ianuska de antes. Antes da minha conversão de verdade ao catolicismo, antes de buscar uma intimidade com Jesus e Maria que transformasse não apenas o que eu dizia acreditar, mas também a maneira como eu enxergava a vida.
Eu mudei de opinião. Mudei de convicções. Minha fé passou a ocupar um lugar muito mais profundo na minha vida.
E não tenho vergonha de contar isso. A gente cresce, amadurece, revê ideias, descobre coisas sobre si mesma e, às vezes, percebe que já não pensa como aquela mulher que foi um dia. Ainda bem, né? Imagina passar a vida inteira sem rever uma única opinião. Que economia de neurônios seria essa?
Mas existe uma coisa que não mudou: eu continuo sendo uma mulher que pensa, questiona e quer ter liberdade para refletir sobre o mundo em que vive.
E é justamente por isso que algumas conversas me incomodam.
Toda feminista defende o aborto?
Pronto. Tema nada polêmico para conversar durante o cafezinho, né? Hahaha!
Mas vamos com calma.
Existe uma ideia muito comum de que toda feminista é a favor do aborto. E, se é a favor do aborto, não pode ser verdadeiramente cristã. Afinal, como uma mulher que defende o feminismo pode conciliar isso com uma fé que considera a vida sagrada?
Eu entendo que exista um conflito aí. Não vou fingir que as diferenças entre determinadas pautas feministas e a doutrina católica não existem. Existem, sim. E não precisam ser disfarçadas para que a conversa aconteça.
O que eu questiono é essa mania de transformar uma questão complexa numa espécie de teste de pertencimento.
É como se, para ser feminista, eu precisasse concordar com tudo o que determinadas feministas defendem. E, para ser católica, precisasse deixar de questionar qualquer coisa que alguém associe ao feminismo.
Mas quem foi que estabeleceu essas regras?
Onde está escrito que uma mulher precisa entregar a própria capacidade de pensar na porta da igreja ou na entrada de uma discussão feminista?
Eu não recebi esse memorando. Se você recebeu, me encaminha, porque aparentemente perdi uma reunião importante. Hahaha!
Eu não sou a favor do aborto. Mas essa conversa não termina aí.
Hoje, considero o aborto moralmente errado à luz da minha fé católica. Não vou esconder isso para parecer mais coerente com determinado grupo, nem mudar o que acredito para ser aceita em uma discussão.
Minha fé tem peso nas minhas escolhas e na maneira como compreendo a vida.
Mas também não consigo olhar para uma mulher feminista e concluir, automaticamente, que ela pensa igual a todas as outras feministas. Muito menos que, por isso, não possa ser cristã.
E existe uma diferença importante entre dizer o que eu acredito e achar que tenho todas as respostas para a vida de outra mulher.
Eu posso explicar minhas convicções. Posso falar sobre aquilo que minha fé me ensina. Posso discordar, argumentar e defender meus valores.
O que eu não posso é presumir que conheço a história inteira de alguém só porque conheço a opinião dela sobre um assunto.
A vida real é bem menos organizada do que as discussões da internet. Na internet, todo mundo parece ter uma resposta pronta para qualquer situação. Na vida real, existem histórias que não cabem em comentários de três linhas, dores que não aparecem numa fotografia e decisões que carregam consequências que nós nunca teremos de enfrentar no lugar da outra pessoa.
E é aí que a conversa fica séria.
Defender a vida também exige olhar para quem está vivendo aquela história.
Imagine uma mulher que engravida depois de sofrer violência sexual.
O corpo dela foi invadido. Sua intimidade foi violada. Algo profundamente violento aconteceu com ela, e agora existe uma gravidez que também está ligada àquela experiência.
É uma situação brutal. E eu não vou fingir que tenho uma resposta simples para uma dor que não vivi.
Como católica, posso dizer que considero o aborto um pecado. Posso explicar aquilo em que acredito e por que acredito.
Mas será que isso me dá o direito de olhar para essa mulher, conhecer um pedaço da história dela e decretar que sei exatamente o que ela deve fazer?
Será que minha convicção precisa virar uma sentença sobre a vida dela?
Eu penso que não.
E digo isso não porque minha fé perdeu importância, mas porque não quero usar aquilo em que acredito como autorização para ocupar o lugar de consciência de outra pessoa.
Se uma mulher me procurasse numa situação dessas, eu não fingiria pensar diferente. Eu falaria da minha fé, da minha compreensão sobre a vida e do que acredito ser certo. Mas também precisaria escutá-la, acolher sua dor e reconhecer que aquela história não é minha.
Não me cabe invadir novamente essa mulher com as minhas convicções, como se ela já não tivesse sofrido uma invasão tão profunda da própria intimidade.
Eu posso sustentar aquilo em que acredito sem fingir que conheço todas as respostas para a vida de outra mulher.
E, para mim, essa distinção importa muito.
Mas, Ianuska, você não está sendo contraditória?
Talvez alguém pergunte isso. E tudo bem. Estamos conversando, não distribuindo certificados de coerência.
Eu compreendo que alguém veja uma contradição entre minha posição sobre o aborto e minha defesa da liberdade de escolha da mulher, especialmente quando se trata de uma gravidez decorrente de violência sexual.
Essa tensão existe. Não preciso fingir que não.
O que estou dizendo é que minha convicção moral e minha maneira de tratar outra pessoa precisam ser pensadas com seriedade. Eu não sou a favor do aborto, mas defendo que uma mulher tenha liberdade para decidir diante de uma situação tão íntima e difícil, como uma gravidez decorrente de estupro.
Não estou dizendo que a Igreja Católica concorda com essa posição. Estou falando de como eu, Ianuska, procuro conciliar minhas convicções religiosas com a responsabilidade de não transformar minha fé em instrumento de condenação de outra mulher.
A minha conversão mudou a maneira como enxergo o mundo. Mas ela não me deu acesso à consciência de ninguém, nem me tornou dona das respostas que outra pessoa precisa encontrar diante de Deus.
Se acredito que Jesus é o juiz, preciso ter cuidado para não me comportar como se o lugar dele estivesse vago.
Convenhamos: já temos problemas suficientes para administrar na nossa própria vida. Assumir também o cargo de juíza da consciência alheia parece um excesso de função. E nem recebemos adicional por isso!
Então eu posso ser feminista e católica?
Eu acredito que sim.
Não porque todas as ideias feministas sejam compatíveis com a doutrina católica. Não são. E não porque ser católica signifique concordar com qualquer pauta apresentada em nome das mulheres.
Mas porque o feminismo não é um bloco único, com uma lista universal de opiniões obrigatórias. Existem correntes, divergências, mulheres com histórias diferentes e pessoas que chegam a conclusões distintas partindo de suas próprias experiências e convicções.
Uma mulher pode defender a dignidade, a segurança, a educação, a autonomia e os direitos das mulheres e, ao mesmo tempo, viver sua fé católica com sinceridade. Isso não apaga as diferenças que possam existir entre suas posições e determinados movimentos ou pautas.
Ela não precisa fingir que essas diferenças não existem. Precisa ter coragem para reconhecê-las e conversar sobre elas.
Eu sou católica. Sou mulher. Tenho minhas convicções, minhas contradições, minhas perguntas e uma história que não começou no dia em que aprendi a explicar aquilo em que acredito.
E não quero precisar escolher entre pensar e crer.
Muito menos quero que a minha fé, que tanto transformou a minha vida, se torne uma ferramenta para humilhar uma mulher que está atravessando uma situação que eu não conheço por inteiro.
Talvez a gente precise conversar mais e presumir menos. Escutar antes de condenar. Discordar sem desumanizar. E parar de exigir que todas as mulheres caibam em categorias perfeitamente organizadas, porque nós, convenhamos, já somos complicadas demais para caber em etiquetas.
No fim das contas, minha fé orienta a minha vida. Ela não me autoriza a fingir que conheço a vida inteira de outra pessoa.
E talvez essa seja uma das conversas mais difíceis que precisamos aprender a ter: como defender aquilo em que acreditamos sem transformar nossa convicção numa sentença sobre a história de alguém?
Eu ainda tenho muito a pensar sobre isso. Mas prefiro pensar, conversar e continuar aprendendo a simplesmente apontar o dedo.
Afinal, entre o surto e a sensatez, a gente conversa.
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