Não passar roupa, fazer xixi no banho, pedir ajuda, usar tênis com tudo e outras pequenas rebeldias que não deveriam precisar de autorização.

Amiga, posso te contar uma coisa?

Eu desconfio que inventaram a mulher perfeita só para dar trabalho às mulheres de verdade.

Veja bem: ela acorda cedo, faz exercício, toma um café da manhã saudável, bebe água, cuida da pele, trabalha, mantém a casa organizada, educa os filhos com inteligência emocional, tem um relacionamento maravilhoso, está sempre bem-humorada e, naturalmente, nunca tem uma crise existencial olhando para o teto às duas da manhã.

Ah! E a roupa dela não amassa.

Não sei você, mas eu já me cansei só de imaginar essa criatura.

A gente mal consegue lembrar onde deixou a chave de casa e já tem alguém ensinando como devemos organizar a rotina, melhorar a alimentação, cuidar da aparência, administrar as emoções e alcançar nossa melhor versão.

A melhor versão de quem, minha gente? Porque, dependendo do dia, a minha melhor versão é aquela que consegue tomar banho sem ninguém bater na porta.

E está tudo certo.

Pensando nisso, resolvi fazer uma pequena lista de coisas que precisamos normalizar. Não porque exista um comitê internacional das mulheres cansadas, embora eu considere a criação dessa instituição uma excelente ideia, mas porque talvez estejamos levando algumas bobagens a sério demais.

1. Não passar roupa. Simplesmente não passar.

Eu queria muito conhecer a pessoa que olhou para um pedaço de tecido amassado e pensou: “Sabe do que isso precisa? De uma mulher em pé, segurando um ferro quente, perdendo preciosos minutos da vida.”

Quem foi? Qual era o contexto? Estava tudo bem na vida dessa pessoa?

Veja, não tenho nada contra roupa passada. Uma camisa bem alinhada tem seu charme. O problema é quando a gente começa a achar que a dignidade humana depende do estado da gola.

Tem roupa que você passa, veste, senta no sofá e pronto: ela volta a parecer que dormiu dentro de uma mochila.

E tem aquelas peças que ficam tão bem no cabide que a gente quase não tem coragem de usar, porque sabe que o primeiro movimento do corpo vai inaugurar novas rugas no tecido.

Minha filha, eu já tenho preocupações suficientes com as minhas próprias rugas.

Se você gosta de passar roupa, passe. Se prefere comprar tecidos que não precisam disso, compre. Se a sua estratégia é pendurar tudo direitinho e torcer pelo melhor, estamos juntas.

Só não me venha dizer que uma camiseta amassadinha é sinal de que uma mulher perdeu o controle da própria vida. Às vezes, ela só escolheu fazer outra coisa com o tempo dela.

Como, por exemplo, sentar.

Uma atividade subestimada pela humanidade.

2. Fazer xixi no banho sem transformar o assunto em uma crise diplomática

Eu sabia que você ia continuar lendo. Hahahaha!

Vamos combinar que o banheiro é um lugar cheio de mistérios. Tem gente que canta, tem gente que chora, tem gente que aproveita cinco minutos de silêncio e tem gente que só queria escovar os dentes sem ouvir “MÃÃÃE!” do outro lado da porta.

E tem o famoso xixi no banho.

Pronto, falei.

Para a maioria das pessoas saudáveis, urinar durante o banho não costuma representar um problema de saúde por si só, desde que haja higiene adequada. Claro que cada casa tem suas particularidades, e dividir o banheiro exige consideração pelos outros.

Mas eu acho curioso como certas coisas provocam debates dignos de uma reunião do Supremo Tribunal Federal, enquanto outras questões, essas sim importantes, passam despercebidas.

A pergunta que fica é: estamos discutindo higiene ou estamos apenas procurando mais uma oportunidade para fiscalizar a vida alheia?

Porque, sinceramente, se a pessoa está tomando banho, cuidando da higiene e não está prejudicando ninguém, talvez existam assuntos mais urgentes para ocupar nossa capacidade de indignação.

A conta de luz, por exemplo.

Essa, sim, merece uma investigação.

3. Pedir ajuda antes de virar uma entidade sobrenatural

Você já percebeu que algumas mulheres só pedem ajuda quando estão prestes a se transformar em uma assombração?

A pessoa está trabalhando, cuidando da casa, resolvendo as coisas dos filhos, lembrando os compromissos de todo mundo, comprando o que acabou, organizando o que ninguém organizou e tentando descobrir por que o aplicativo do banco resolveu mudar de lugar justamente a função que ela precisa usar.

Aí alguém pergunta:

“Você está brava?”

Não, querido. Estou ótima. Só estou sustentando mentalmente uma pequena empresa chamada Família Ltda., sem salário, sem férias e com expediente em horário integral.

E, quando finalmente pede ajuda, começa a apresentação:

“Você pode fazer isso para mim? É que hoje eu precisei resolver aquela coisa, depois aconteceu aquilo, ainda tive que…”

Amiga, respira. Você não precisa apresentar documentos, três testemunhas e reconhecimento de firma para justificar que também está cansada.

E aqui existe uma diferença importante: ajudar não deveria significar que uma pessoa é a responsável oficial por tudo e as outras são auxiliares que precisam receber ordens.

Quando a casa é compartilhada, as responsabilidades também precisam ser compartilhadas. E isso inclui perceber o que precisa ser feito, não apenas esperar que alguém distribua as tarefas.

Porque administrar a casa inteira e ainda precisar ensinar todo mundo a colaborar é um trabalho à parte.

Inclusive, cadê o salário dessa gerente?

4. Usar tênis com tudo e deixar os pés em paz

Eu não sei em que momento a humanidade decidiu que algumas ocasiões exigem sofrimento nos pés, mas gostaria de rever essa decisão.

Tem mulher que coloca um salto e parece que nasceu caminhando sobre as nuvens. Acho lindo. Admiro. Inclusive, observo de longe, com respeito e uma pontinha de preocupação ortopédica.

Mas eu gosto mesmo é da liberdade de colocar um tênis e sair para resolver a vida.

Vestido com tênis? Sim.

Calça de alfaiataria com tênis? Sim.

Aquele look arrumadinho com um tênis confortável porque você vai andar, trabalhar, buscar criança, passar no mercado e ainda tentar chegar à academia? Minha amiga, isso não é falta de elegância. É planejamento logístico.

A mulher já precisa lembrar de tanta coisa que seria injusto exigir que ela também caminhe como uma princesa de conto de fadas enquanto carrega a bolsa, o celular, as chaves e a responsabilidade afetiva da família inteira.

Use o sapato que quiser.

Só não precisa comprar um tênis branco se você for do tipo que consegue sujá-lo cinco minutos depois de sair de casa. Algumas de nós têm talentos muito específicos.

5. Ter uma casa com sinais de que alguém mora nela

Eu acho engraçado que a gente veja uma sala perfeitamente organizada em uma fotografia e, de repente, olhe para a própria casa como se tivesse falhado na vida.

Calma.

Na fotografia, ninguém sabe se o fotógrafo pediu para tirar os brinquedos do chão, esconder os fios, empurrar a bagunça para dentro do quarto e colocar uma manta estrategicamente sobre aquela cadeira que já não recebe uma pessoa sentada há três semanas.

A casa real tem vida.

Tem uma caneca esquecida na mesa, uma almofada fora do lugar, um brinquedo que você já guardou quatro vezes e que parece ter desenvolvido capacidade de reprodução.

Tem aquela cadeira que não é exatamente uma cadeira, mas uma extensão do guarda-roupa.

Você sabe qual.

E não adianta fingir que não sabe.

É claro que ter um ambiente limpo e organizado faz diferença. Ninguém está propondo viver em meio ao caos por princípio. A questão é outra: desde quando a casa precisa estar impecável para que a gente possa aproveitar a própria casa?

Às vezes, a sala está bagunçada porque as crianças brincaram. Às vezes, porque todo mundo chegou cansado. Às vezes, porque havia coisas mais importantes para fazer.

E, às vezes, porque você simplesmente não quis arrumar.

Acontece.

Agora, se você mora com outras pessoas, temos uma notícia: a bagunça não é uma obra de arte contemporânea produzida exclusivamente por você. Os moradores também podem participar da manutenção do espaço.

Inclusive, aquele ser humano que pergunta onde está tudo, mas nunca sabe onde guarda nada, pode começar pela própria gaveta.

Fica a sugestão.

6. Ser solteira sem precisar participar de uma entrevista de emprego amorosa

“Mas você não namora ninguém?”

“E não pretende casar?”

“Não tem medo de ficar sozinha?”

Minha senhora, ela veio comprar pão. Não está se candidatando a uma vaga de esposa.

Eu acho fascinante como a vida amorosa de uma mulher pode virar assunto público com uma facilidade impressionante. Basta ela estar solteira por algum tempo e, de repente, todo mundo parece ter uma teoria sobre o que está acontecendo.

Talvez ela queira namorar. Talvez não queira. Talvez tenha terminado uma relação e esteja feliz com a própria companhia. Talvez esteja triste, confusa, apaixonada pela liberdade ou simplesmente ocupada demais para pensar nisso hoje.

E sabe o que mais?

Ela não precisa ter uma justificativa extraordinária.

Casar pode ser lindo. Construir uma vida com alguém pode ser uma experiência maravilhosa. Mas estar solteira não significa estar aguardando a chegada de uma pessoa para que a história finalmente comece.

A história já começou, querida.

Tem gente que está solteira e feliz. Tem gente que está casada e feliz. Tem gente que está casada e querendo cinco minutos de silêncio no banheiro. Tem gente que está solteira e cansada de aplicativos de relacionamento.

A vida não respeita categorias tão bonitinhas.

E ainda bem.

7. Mudar de ideia sem convocar uma coletiva de imprensa

Você já defendeu uma coisa com toda a convicção do mundo e, anos depois, percebeu que pensava diferente?

Pois é. Acontece com pessoas que continuam vivas, aprendendo e prestando atenção ao mundo.

A gente muda de gosto, de prioridades, de opinião e até de sonho. Aquela profissão que parecia perfeita aos 20 anos talvez já não faça sentido aos 40. A roupa que você amava pode ter perdido a graça. A ideia de vida que você perseguia pode ter sido substituída por outra.

E tudo bem.

Claro que existem princípios importantes, responsabilidades e consequências. Mudar de ideia não é uma licença para abandonar compromissos sempre que aparece uma dificuldade.

Mas também não precisamos defender todas as escolhas antigas como se reconhecer uma mudança fosse uma derrota pública.

Você não é obrigada a continuar querendo a mesma coisa só porque contou para todo mundo que queria.

Aliás, seria muito conveniente se a gente pudesse atualizar algumas informações sobre si mesma sem precisar explicar a mudança para os parentes no almoço de domingo.

“Mas você sempre disse que…”

Pois é, tia. Naquela época eu também achava que dormir oito horas era uma possibilidade real.

A vida ensina.

8. Não estar maravilhosa todos os dias

Existe uma expectativa curiosa de que a mulher esteja sempre em processo de melhoria.

Se está cansada, precisa rever a rotina. Se está triste, precisa praticar gratidão. Se está irritada, precisa aprender a regular as emoções. Se está desanimada, precisa encontrar seu propósito.

E, se possível, fazer tudo isso antes das oito da manhã.

Amiga, às vezes a gente está cansada porque dormiu mal. Às vezes está irritada porque teve um dia difícil. Às vezes está triste porque alguma coisa doeu. E, às vezes, precisa investigar melhor o que está acontecendo, especialmente quando o sofrimento persiste ou começa a atrapalhar a vida.

Mas nem toda emoção desagradável precisa virar um projeto de desenvolvimento pessoal.

Imagine terminar um dia complicado, sentar no sofá e pensar: “Além de tudo o que aconteceu hoje, ainda preciso transformar essa experiência em aprendizado.”

Não, obrigada.

Algumas experiências podem ser apenas experiências ruins. Algumas noites podem terminar com você de pijama, comendo alguma coisa gostosa e sem descobrir absolutamente nada sobre o sentido da existência.

Amanhã você pensa nisso.

Ou depois.

9. Cantar na rua, dançar na cozinha e outras atividades de utilidade pública duvidosa

Esses dias, eu estava voltando da academia e me sentindo tão bem que comecei a cantar Roar, da Katy Perry, bem alto, ouvindo música nos fones.

Sim, na rua.

E eu estava feliz daquele jeito meio difícil de explicar. Sabe quando você termina de se exercitar, sente o corpo desperto e parece que até o ar está mais interessante?

Pois é. Eu estava vivendo meu pequeno videoclipe particular.

Em algum momento, uma mulher me viu e sorriu.

E não foi aquele sorriso de quem pensa “coitada, perdeu completamente a noção”. Foi um sorriso de cumplicidade, como se ela tivesse reconhecido alguma coisa naquela cena.

Eu sorri também.

Foi um instante pequeno, desses que provavelmente não significaram quase nada na agenda do dia, mas que ficaram comigo.

Fiquei pensando em como a gente aprende a se controlar o tempo inteiro. Não fale alto. Não ria desse jeito. Não chame atenção. Não seja exagerada. Não pareça ridícula.

E, quando percebe, está até pedindo desculpas por estar feliz.

Não estou dizendo que precisamos sair cantando em cima dos carros, interromper o sono dos vizinhos ou transformar qualquer lugar em um palco. Existe uma diferença entre se permitir viver e ignorar que outras pessoas também estão vivendo ao nosso redor.

Mas cantar uma música de que você gosta? Dançar enquanto prepara o jantar? Dar uma risada escandalosa com uma amiga? Comemorar uma pequena vitória como se tivesse acabado de ganhar um Oscar?

Que delícia.

Nem toda alegria precisa ser discreta para ser elegante.

E nem toda coisa que faz bem precisa virar uma prática de autocuidado com nome em inglês e assinatura mensal.

Às vezes, é só uma música boa.

10. Ter dias em que a única conquista foi sobreviver à própria agenda

Tem dia em que a gente faz tanta coisa que chega à noite sem entender como conseguiu.

E tem dia em que a lista de tarefas continua praticamente intacta, mas a gente está exausta mesmo assim.

Nesses dias, é muito fácil olhar para o que ficou por fazer e esquecer tudo o que foi necessário para chegar até ali.

A gente não precisa transformar isso em uma competição para descobrir quem está mais cansada. Nem romantizar o esgotamento, como se viver no limite fosse uma medalha de honra.

Só precisamos reconhecer que a vida não acontece em condições perfeitas.

Há crianças, trabalho, imprevistos, preocupações, noites maldormidas e coisas que não cabem em nenhum planejamento semanal.

E há momentos em que descansar é mais importante do que concluir mais uma tarefa.

Se você passou o dia resolvendo problemas e à noite só conseguiu tomar banho, colocar uma roupa confortável e assistir a alguma coisa sem pensar muito, talvez não tenha sido um dia desperdiçado.

Talvez você só estivesse precisando de um intervalo.

E, convenhamos, ninguém deveria precisar adoecer para ter autorização de descansar.

No fim das contas, quem foi que estabeleceu tantas regras?

Talvez o mais engraçado seja perceber que algumas das cobranças que nos deixam exaustas nem vêm de alguém que esteja exigindo alguma coisa diretamente.

Elas já estão tão incorporadas que aparecem na nossa própria cabeça.

A gente vê a roupa amassada e se incomoda. Olha para a casa e acha que deveria fazer mais. Sente vontade de descansar, mas lembra de tudo o que ainda falta.

E lá vamos nós, outra vez, tentando alcançar um padrão que ninguém consegue sustentar por muito tempo.

Não quero convencer você a abandonar a organização, parar de passar roupa ou transformar a vida em um grande improviso. Se você gosta de rotina, de casa arrumada e de se planejar, aproveite.

A questão é poder escolher sem sentir que existe alguma coisa errada com você quando escolhe diferente.

Porque eu quero passar roupa quando fizer sentido, não porque uma camiseta amassada ameaça minha reputação.

Quero pedir ajuda antes de precisar ser encontrada caída ao lado da máquina de lavar.

Quero usar tênis porque gosto. Quero rir alto quando achar graça. Quero cantar na rua quando uma música me fizer feliz, desde que eu não esteja incomodando ninguém.

E quero poder ter um dia improdutivo sem transformar o descanso em mais uma tarefa que preciso executar perfeitamente.

No fundo, acho que a gente precisa de menos fiscalização e mais liberdade para ser gente.

Inclusive gente meio bagunçada, às vezes cansada, de vez em quando exagerada e frequentemente sem saber onde deixou a chave.

Se você encontrar a minha, me avisa.

Estou atrasada.

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