Tem mulher que pede desculpas até quando alguém pisa no pé dela.

“Desculpa, acho que estou no caminho.”

Está no caminho? Minha filha, você está na própria vida!

Brincadeiras à parte, existe uma coisa curiosa sobre muitas de nós: crescemos aprendendo que ser umaenina era quase uma profissão. Tínhamos que ser educadas, obedientes, agradáveis, prestativas e, de preferência, não dar trabalho.

Não era suficiente fazer o certo. Precisávamos fazer o certo sem incomodar ninguém.

A menina que falava demais ouvia que precisava se comportar. A que discordava era respondona. A que dizia não era egoísta. E aquela que queria alguma coisa só para si precisava aprender a dividir, ceder, compreender e deixar para depois.

O problema é que a infância termina, mas algumas regras ficam trabalhando em tempo integral dentro da nossa cabeça.

A menina cresce, vira mulher, trabalha, cuida da casa, dos filhos, dos relacionamentos e ainda sente culpa quando decide descansar. Diz que está tudo bem quando não está. Aceita o que não quer para não decepcionar. E, quando finalmente coloca um limite, passa a noite inteira pensando se não foi grosseira.

Convenhamos: se agradar todo mundo fosse requisito para receber um certificado de boa pessoa, ninguém se formava.

Quem foi que disse que você precisa ser fácil de lidar?

Ser educada não significa concordar com tudo. Ser generosa não significa estar disponível o tempo inteiro. Amar alguém não exige que você desapareça para caber na vida dessa pessoa.

Podemos reconhecer o que recebemos na infância sem precisar carregar todas as regras para sempre. Nossos pais, professores e outras pessoas importantes fizeram parte da nossa formação, mas nem toda orientação que recebemos precisa continuar servindo à mulher que somos hoje.

Talvez você tenha aprendido a evitar conflitos porque queria ser amada. Talvez tenha entendido que receber elogios era mais fácil quando não dava trabalho. Ou talvez só tenha percebido, depois de adulta, o quanto se esforça para não desagradar.

Não precisa transformar isso em culpa. A ideia não é procurar culpados para cada comportamento, mas ganhar consciência para escolher diferente.

A menina ainda mora aí. Mas quem decide é a mulher.

Você pode continuar sendo gentil sem aceitar tudo. Pode ajudar sem assumir a responsabilidade pelo mundo inteiro. Pode mudar de opinião, defender suas escolhas e decepcionar alguém sem que isso transforme você em uma pessoa ruim.

E pode, principalmente, parar de pedir desculpas por ocupar espaço.

A menina que você foi merece carinho. A mulher que você é merece liberdade.

Da próxima vez que sentir vontade de se desculpar por dizer o que pensa, fazer uma escolha ou simplesmente precisar de um tempo, respire antes.

Pergunte a si mesma: eu fiz algo errado ou apenas deixei de fazer o que esperavam de mim?

A resposta pode dar uma conversa e tanto.

Entre o surto e a sensatez, a gente conversa.


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