Eu sempre fui a alegre.
Sabe aquela pessoa que, quando alguém precisa descrever, logo escuta: “Ah, a Ianuska é muito alegre!”?
Pois é. Essa era eu.
A alegria era uma das características pelas quais as pessoas me reconheciam. Não era uma estratégia de marketing pessoal, nem uma tentativa de convencer o mundo de que estava tudo bem. Eu simplesmente era assim.
Até que a vida aconteceu.
Depois do acidente, em 2018, eu me vi mergulhada numa dor que não queria sentir. E não estou falando apenas das dores físicas, das marcas que ficaram no corpo ou de tudo o que precisei enfrentar para continuar vivendo.
Havia também uma dor emocional que me acompanhava e que, por muito tempo, parecia ter ocupado todos os espaços dentro de mim.
Eu queria voltar a ser alegre.
Queria me reconhecer de novo. Queria encontrar aquela mulher que eu conhecia tão bem, mas que parecia ter ficado perdida em algum lugar daquela história.
É curioso como, às vezes, a gente não sente apenas a dor do que aconteceu. Sente também a falta de quem era antes.
E eu estava com saudade de mim.
Foi aí que entrou o palhaço. E não, não estou falando do seu ex!
Calma, mulher! 😂
Estou falando de palhaçaria mesmo, aquela arte que usa o humor, o corpo, o improviso e a vulnerabilidade para criar encontros com o público.
Naquele período, comecei a fazer teatro e estudar palhaçaria. Eu estava triste, mas queria me pintar de piadas. Queria parecer feliz, experimentar o riso, brincar, me expressar.
Talvez eu ainda não soubesse exatamente o que estava procurando. Só sabia que precisava encontrar alguma coisa que me ajudasse a sair, nem que fosse por alguns instantes, daquele lugar tão doloroso em que eu estava.
E fui me envolvendo com aquela experiência.
A palhaçaria me permitia brincar, experimentar, errar, improvisar. Eu podia entrar em cena, construir uma personagem e me expressar de maneiras que nem sempre cabem numa conversa cotidiana.
E sabe o que aconteceu?
Eu fui tão bem nas aulas que cheguei a fazer um monólogo teatral!
Sim, minha gente! A mulher estava lá, tentando juntar os próprios pedaços, e ainda descobriu que tinha talento para subir num palco e contar uma história.
Quem diria?
Às vezes, a vida esconde umas surpresas no meio da bagunça. A gente está tentando descobrir como vai atravessar a semana e, de repente, encontra uma habilidade que nem sabia que tinha.
Mas o que senti naquele momento foi muito maior do que o orgulho de ter feito um bom trabalho.
Eu me senti viva de novo. Importante de novo. Pronta para recomeçar.
E talvez você não consiga imaginar o tamanho disso se nunca experimentou a sensação de se afastar de si mesma em meio a uma dor profunda.
Eu estava ali. Existindo. Criando. Aprendendo. Fazendo alguma coisa que tinha significado para mim.
Eu não era apenas a mulher que tinha sofrido um acidente, que estava enfrentando a depressão ou que precisava lidar com as consequências de tudo o que havia vivido.
Eu também era a mulher que fazia teatro.
Que estudava palhaçaria.
Que tinha descoberto uma habilidade.
Que podia subir num palco.
Eu ainda era muita coisa.
O palhaço se pinta de piadas. E eu comecei a entender algumas coisas
Existe uma música do Teatro Mágico que fala sobre o palhaço e essa imagem de se pintar de piadas.
Essa ideia me marcou de uma maneira muito particular.
Naquele período, eu estava triste, mas queria parecer feliz. E a imagem do palhaço conversava com alguma coisa que eu estava vivendo, embora eu talvez ainda não soubesse explicar exatamente o quê.
A maquiagem, as brincadeiras, o humor e a possibilidade de criar uma personagem me ofereciam um espaço para experimentar outra forma de expressão.
Com o tempo, comecei a compreender algo importante: eu não precisava sentir vergonha da minha tristeza.
Durante muito tempo, eu quis deixar de sentir aquela dor. Queria recuperar a alegria que sempre fez parte de mim. E não há nada de errado em desejar dias melhores quando estamos sofrendo.
O problema é quando começamos a acreditar que precisamos estar bem o tempo inteiro para continuar sendo nós mesmas.
Como se a mulher alegre não pudesse ficar triste.
Como se a mulher forte não pudesse desabar.
Como se a mulher que sempre fez os outros rirem não tivesse o direito de precisar de colo.
Ora, minha filha, quem foi que inventou esse regulamento da felicidade? E onde é que a gente protocola um pedido de revisão? 😂
A experiência com a palhaçaria não apagou o que aconteceu comigo. Não transformou a minha dor numa piada, nem fez com que tudo ficasse magicamente bem.
Mas me ofereceu uma maneira de me expressar, de experimentar coisas novas e de voltar a me sentir conectada comigo mesma.
E isso teve um significado enorme na minha vida.
Aos poucos, fui entendendo que respeitar a própria dor não significa precisar morar nela para sempre. E também não significa apressar a recuperação, fingir que nada aconteceu ou colocar um sorriso no rosto para tranquilizar os outros.
Significa reconhecer o que sentimos, permitir que essa experiência exista e buscar caminhos possíveis para continuar vivendo.
No meu caso, o teatro e a palhaçaria fizeram parte desse caminho.
E eu sou profundamente grata por isso.
Você não precisa ser engraçada para encontrar a sua alegria
Agora, deixa eu esclarecer uma coisa antes que você pense em comprar um nariz vermelho e sair fazendo graça no escritório.
Você não precisa estudar palhaçaria. Não precisa fazer teatro. Não precisa ter talento para comédia, saber contar piadas ou ser aquela pessoa que anima qualquer ambiente.
Aliás, tem gente que conta uma piada e precisa explicar durante quinze minutos por que era engraçada. Conheço pessoas assim. Talvez você conheça também. 😂
A questão não é essa.
A questão é se permitir experimentar alguma coisa que desperte uma parte sua que anda esquecida.
Pode ser teatro, dança, pintura, música, luta, jardinagem, fotografia ou qualquer outra atividade que desperte a sua curiosidade.
Você pode descobrir um talento novo. Pode encontrar prazer em aprender. Pode conhecer pessoas, ocupar outros espaços e viver experiências que não estejam diretamente ligadas às suas responsabilidades de sempre.
E não precisa transformar tudo em profissão, fonte de renda ou projeto de desenvolvimento pessoal.
Você pode fazer alguma coisa simplesmente porque gosta.
Que conceito revolucionário, não é mesmo?
Uma atividade não precisa resolver a sua vida inteira para ter valor. Às vezes, ela só precisa devolver um pouco de entusiasmo a um dia que estava igualzinho aos outros.
E, se você estiver enfrentando sofrimento emocional, também merece buscar apoio adequado. A arte pode ser uma experiência significativa, mas não substitui automaticamente o cuidado profissional de que cada pessoa pode precisar.
Não existe uma receita única para atravessar períodos difíceis.
Existe a possibilidade de descobrir, com o tempo e respeitando seus limites, quais caminhos podem ajudar você.
A mulher que eu era não desapareceu. Mas eu também podia ser outra.
Durante muito tempo, quis recuperar a mulher alegre que eu era antes do acidente.
Hoje, olhando para aquela experiência com a palhaçaria, consigo reconhecer algo muito especial: eu estava descobrindo novas maneiras de existir.
Não precisava provar que continuava alegre.
Não precisava fingir que estava tudo bem.
Eu podia estar triste e, ainda assim, encontrar prazer em uma aula. Podia carregar uma história dolorosa e descobrir uma habilidade nova. Podia precisar de ajuda e, ao mesmo tempo, sentir orgulho de mim mesma.
A vida não precisa estar completamente resolvida para que alguma coisa boa aconteça dentro dela.
E não estou dizendo isso porque encontrei uma frase bonita numa caneca de loja de presentes. Estou dizendo porque vivi uma experiência que me fez sentir viva, importante e pronta para recomeçar.
Aquela mulher que subiu ao palco não tinha deixado de ser a Ianuska que gostava de rir. Mas também era uma Ianuska que estava aprendendo a conviver com uma história diferente daquela que havia imaginado.
E, de alguma maneira, a arte me ajudou a abrir espaço para essa mulher também.
Talvez seja por isso que eu goste tanto da ideia de experimentar coisas novas.
A gente nunca sabe exatamente o que vai encontrar.
Pode descobrir um talento, uma paixão, uma amizade ou uma forma diferente de olhar para si mesma.
Pode simplesmente se divertir por algumas horas.
E tudo isso já tem valor.
Porque não precisamos esperar que a vida fique perfeita para voltar a participar dela.
Vai que você também encontra alguma coisa sua pelo caminho?
Se você está numa fase em que parece ter se perdido um pouco de si mesma, não vou dizer que basta fazer teatro, começar a dançar ou entrar numa aula de boxe para tudo melhorar.
Seria simplificar demais coisas que, muitas vezes, são complexas e dolorosas.
Mas quero deixar um convite.
Experimente alguma coisa.
Retome uma atividade que você amava. Faça uma aula experimental. Aprenda uma habilidade que sempre despertou sua curiosidade. Permita-se ser iniciante, errar, rir de si mesma e descobrir que ainda existem experiências esperando por você.
Não precisa publicar. Não precisa contar para ninguém. Não precisa ser boa.
Você só precisa se dar a oportunidade de descobrir como se sente.
Eu encontrei no teatro e na palhaçaria um espaço que me ajudou a atravessar um período muito difícil. E, entre exercícios, improvisações, piadas e apresentações, descobri que ainda podia me sentir viva.
A minha história não é uma fórmula para ninguém. É apenas a lembrança de algo que fez diferença na minha vida e que talvez inspire você a procurar o que pode fazer diferença na sua.
E, se um dia você se encontrar diante de um espelho, experimentando uma atividade nova e pensando “olha só o que eu estou fazendo!”, celebre.
Você não precisa ter descoberto a sua grande missão.
Talvez só tenha descoberto que gosta de pintar, dançar, atuar ou fazer alguma coisa que nunca imaginou.
E isso já é um começo.
Eu, que um dia quis me pintar de piadas porque estava triste, descobri na palhaçaria uma possibilidade de me expressar, me reconhecer e recomeçar.
Hoje, quando penso naquela mulher, não sinto vontade de dizer a ela que deveria ter sido mais forte, ter sofrido menos ou ter encontrado a alegria mais depressa.
Tenho vontade de abraçá-la.
E agradecer por ela ter continuado procurando.
Porque, às vezes, a gente não precisa encontrar imediatamente o caminho de volta para quem era.
Pode descobrir, aos poucos, quem também é capaz de ser.
E isso, minha amiga, já é motivo para abrir um sorriso.
Mesmo que seja com um nariz vermelho.
Com carinho,
Ianuska.
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