Amiga, tenho uma notícia que talvez abale as estruturas da sua existência: você pode fazer uma coisa muito mal e continuar fazendo essa coisa.
Sim! Pode respirar.
Você pode dançar igual a um guarda-roupa tentando descer uma escada, cantar como se estivesse brigando com a melodia e pintar um quadro que nem você mesma consiga explicar o que representa.
E está tudo bem!
O problema é que a gente anda tão acostumada a performar e a precisar dar conta de tudo que até a diversão virou uma espécie de processo seletivo.
A mulher resolve aprender cerâmica e, antes mesmo de descobrir como se mexe no barro, já está pensando na identidade visual da marca.
Compra um caderno para escrever e fica esperando uma ideia genial. Minha filha, escreve que o arroz queimou! Começa por algum lugar!
Vai fazer aula de dança e passa os primeiros vinte minutos olhando discretamente para o lado, tentando descobrir se todo mundo nasceu sabendo mexer o quadril, menos ela.
E aquela que começa a fazer bolo? Se o primeiro ficar bonito, já está calculando o preço de venda. Se ficar feio, pelo menos pode comer o prejuízo.
Gente, pelo amor de Deus! A mulher não pode mais fazer uma gracinha em paz?
Eu sou péssima cantora. Meu gato pode confirmar.
Vou dar um exemplo pessoal, porque aqui a gente não trabalha com personagens fictícias perfeitas.
Eu sou péssima cantora. Péssima mesmo. Zero talento. Se talento musical fosse um requisito para entrar no céu, eu já estaria procurando outra religião. 😂
E não estou exagerando, não! Quando começo a cantar, meu gato, esteja onde estiver, aparece. Ele vem até mim e me dá umas mordidinhas de leve, como quem pergunta:
“Você tá pedindo socorro? Tá tudo bem? Alguém está fazendo alguma coisa com você?”
GENTE! ATÉ O GATO ACHA QUE EU ESTOU EM PERIGO!
O bichinho interrompe o que está fazendo para prestar atendimento à cantora. Eu não tenho fãs, tenho uma equipe de resgate.
E quer saber? Eu continuo cantando!
Porque imagina se eu fosse deixar de cantar só porque canto mal? Eu já teria perdido um dos prazeres mais simples da vida por causa de uma habilidade que, francamente, não vai fazer falta no meu currículo.
Não vou ganhar o Grammy. Meu gato não vai me aplaudir. E existe uma possibilidade real de ele continuar acionando o SAMU felino toda vez que eu soltar a voz.
Mas eu gosto de cantar, ué!
E desde quando a gente precisa ser boa em tudo o que gosta de fazer?
Em que momento o lazer virou mais uma obrigação?
Vamos combinar que a vida adulta já vem com um pacote considerável de responsabilidades. Tem trabalho, casa, contas, compromissos, família, mensagens que você esqueceu de responder e aquela sensação de que, mesmo depois de passar o dia inteiro fazendo coisas, ainda falta fazer outras 47.
Aí você finalmente consegue uma horinha para fazer alguma coisa de que gosta.
E o que acontece?
Você começa a se cobrar.
Se vai caminhar, precisa bater a meta de passos. Se vai cozinhar, tem que sair uma receita maravilhosa. Se começa a pintar, quer aprender todas as técnicas. Se decide dançar, fica se comparando com aquela criatura que parece ter nascido com uma coreografia instalada de fábrica.
Até o descanso precisa apresentar resultados!
Você não pode simplesmente ficar quieta. Tem que aproveitar para meditar, ler, cuidar da pele, organizar a semana e, se sobrar tempo, descobrir seu propósito de vida.
MINHA FILHA, VOCÊ SÓ QUERIA FICAR SENTADA NO SOFÁ!
Não sei em que reunião decidiram que uma mulher adulta precisa transformar tudo em produtividade, mas gostaria de registrar minha indignação.
Nem tudo precisa dar dinheiro. Nem tudo precisa melhorar seu currículo. Nem tudo precisa virar um projeto de desenvolvimento pessoal.
Às vezes, você só quer fazer uma coisa porque é gostoso.
E isso, por si só, já é um excelente motivo.
Você não precisa monetizar até a sua alegria
Essa mania de transformar tudo em renda extra merece uma conversa.
Você gosta de cozinhar? Venda bolos.
Gosta de maquiagem? Crie conteúdo.
Gosta de escrever? Publique um livro.
Gosta de organizar a casa? Monte uma consultoria.
Gosta de fazer artesanato? Abra uma loja.
E, olha, não tenho absolutamente nada contra ganhar dinheiro com aquilo que a gente ama. Se for uma vontade sua, maravilhoso! Que venham os clientes, as vendas e os boletos pagos.
O problema é quando você começa a acreditar que precisa transformar todo interesse em alguma coisa lucrativa para justificar o tempo que dedica a ele.
Você pode fazer um bolo sem abrir uma confeitaria.
Pode aprender italiano sem planejar uma mudança para Roma.
Pode pintar sem vender quadros.
Pode plantar temperos sem inaugurar uma empresa de produtos orgânicos.
E pode cantar muito mal sem pensar em abrir um canal de música na internet.
No meu caso, inclusive, seria prudente manter a atividade no ambiente doméstico. Não quero causar uma comoção pública nem sobrecarregar os serviços de emergência felinos. 😂
Brincadeiras à parte, existe uma diferença enorme entre fazer algo porque você gosta e sentir que precisa transformar aquilo em trabalho.
Nem tudo o que você ama precisa pagar suas contas. Algumas coisas podem simplesmente deixar a vida mais gostosa.
Que conceito revolucionário, não é mesmo?
Fazer alguma coisa sem precisar descobrir como ela pode ser útil.
E se você fosse a pior da turma?
Imagine que você decida fazer uma aula de pintura.
Você chega e encontra uma senhora que pinta maravilhosamente bem, uma moça que já vende quadros e outra pessoa que parece ter nascido com um pincel na mão.
E você está ali, tentando descobrir por que sua árvore parece uma couve-flor com problemas emocionais.
Pronto. Está feita a tragédia.
Você começa a pensar que não leva jeito, que deveria ter começado mais cedo, que talvez seja melhor desistir antes que alguém perceba o desastre artístico que está acontecendo naquela tela.
Mas espera um pouquinho.
Você foi até ali para pintar ou para vencer um campeonato mundial de pintura que ninguém organizou?
É impressionante como conseguimos transformar uma experiência que poderia ser divertida em uma avaliação do nosso valor.
Em vez de perguntar se estamos gostando, queremos saber se somos boas.
Em vez de aproveitar o aprendizado, comparamos nosso começo com o resultado de quem pratica há anos.
E assim, antes mesmo de descobrir se gostamos da atividade, já estamos pensando em desistir porque não somos excelentes nela.
Amiga, você não precisa ser a melhor da turma.
Pode ser a iniciante que erra o passo, mistura as cores erradas e pergunta pela terceira vez onde fica o material.
Pode aprender devagar. Pode precisar de ajuda. Pode até descobrir que não gosta tanto daquilo quanto imaginava.
A experiência continua sendo válida.
Você não está concorrendo a nada. Ninguém vai entregar uma medalha para a mulher que teve o melhor desempenho durante a aula de cerâmica.
Aliás, se entregarem, por favor, não me convidem para participar. Já tenho uma carreira musical fracassada para administrar.
Você pode começar alguma coisa aos 40, aos 60 ou aos 80
Existe outra mania que eu gostaria de aposentar: a ideia de que, depois de certa idade, a gente deveria saber fazer tudo aquilo que ainda tem vontade de aprender.
Como se chegar à vida adulta significasse receber um manual completo de habilidades, talentos e instruções de funcionamento.
Não significa!
Você pode ter criado filhos, construído uma carreira, administrado uma casa, enfrentado dificuldades e resolvido problemas que dariam uma temporada inteira de série e, ainda assim, não saber andar de patins.
Pode ser uma excelente profissional e uma péssima dançarina.
Pode ter uma vida inteira de experiências e não saber plantar um tomate.
Pode chegar aos 60 anos e descobrir que gostaria de aprender violão.
E daí?
Você não está atrasada para começar alguma coisa só porque não começou antes.
A vida não é uma competição na qual todo mundo precisa desenvolver as mesmas habilidades até determinada idade.
E você também não precisa insistir em um hobby só porque comprou o material, pagou o curso ou anunciou para todo mundo que agora vai aprender cerâmica.
Se não gostar, pare. Se gostar, continue. Se quiser experimentar outra coisa na semana seguinte, experimente.
Você não assinou um contrato vitalício com o crochê!
Faça alguma coisa que não precise dar em nada
Vou propor um pequeno experimento.
Escolha alguma coisa que você tenha vontade de fazer, mas que vive adiando porque acha que não leva jeito.
Pode ser cantar, dançar, pintar, cozinhar, bordar, aprender um idioma, fazer jardinagem ou qualquer outra coisa que desperte sua curiosidade.
Agora, combine consigo mesma que você não precisa ser boa nisso.
Não precisa decidir se vai continuar para sempre. Não precisa descobrir se tem talento. Não precisa calcular quanto poderia ganhar com aquilo.
Você só vai experimentar.
Se quiser pintar, pinte.
Se quiser cantar, cante. Mas, se tiver um gato em casa, talvez seja interessante avisá-lo de que está tudo bem e que não há necessidade de intervenção.
Se quiser dançar, dance. Se errar o passo, invente outro.
Se quiser fazer um bolo, faça. E, se ficar feio, coloque uma cobertura generosa e diga que é uma proposta artística contemporânea.
O objetivo não é acrescentar mais uma habilidade ao currículo.
É se permitir viver uma experiência sem transformar aquilo em uma prova do seu valor.
E, por favor, não crie uma planilha para acompanhar seu progresso no hobby. Deixe a planilha descansar. Ela também merece!
A vida já é séria demais. Não precisa transformar tudo em obrigação.
Eu gosto de pensar que a gente não veio ao mundo apenas para cumprir tarefas, atender expectativas e demonstrar competência.
Claro que precisamos trabalhar, cuidar de quem amamos e assumir nossas responsabilidades. A vida adulta não desaparece porque decidimos fazer uma aula de pintura.
Mas também precisamos de espaço para brincar, experimentar, descobrir coisas novas e, de vez em quando, fazer alguma coisa muito mal sem que isso vire um problema.
Você pode ser uma mulher competente sem ser competente em tudo.
Pode ter ambições sem transformar cada minuto livre em uma oportunidade de melhorar o desempenho.
Pode desejar crescer sem acreditar que precisa estar sempre evoluindo.
E pode fazer alguma coisa simplesmente porque gosta.
Sem certificado. Sem aplausos. Sem resultados extraordinários.
Sem nem sequer precisar mostrar para alguém.
Porque nem toda experiência precisa virar uma história de superação. Nem todo hobby precisa ensinar uma lição. Nem todo momento gostoso precisa ter uma finalidade maior.
Às vezes, você só quer passar uma tarde tentando pintar uma flor que ficou parecida com um repolho.
Ou cantar uma música inteira enquanto seu gato avalia se deve chamar reforços.
E sabe o que é mais bonito nisso?
Você pode rir da situação, continuar fazendo o que gosta e não transformar sua falta de talento em motivo para se privar de um prazer.
Agora me conta uma coisa…
Qual é aquela coisa que você adora fazer, mesmo sabendo que não tem talento nenhum?
Eu já entreguei meu segredo musical. Meu gato provavelmente está preparando um depoimento para confirmar a história.
Mas quero saber de você.
Você dança mal? Canta pior ainda? Faz um bolo que precisa de legenda? Tem uma habilidade completamente inútil que, por algum motivo, deixa você feliz?
Me conta!
Porque talvez a gente precise de menos mulheres tentando ser excelentes em tudo e de mais mulheres se permitindo ser iniciantes, desajeitadas e felizes.
Você não precisa ser boa em tudo, minha filha. Às vezes, basta gostar.
E, se o seu gato vier perguntar se você está pedindo socorro, diga que está tudo bem.
É só você sendo feliz.
Com carinho,
Ianuska
Entre o surto e a sensatez, a gente conversa.
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