Tem mulher esperando emagrecer para dançar. Tem mulher esperando a casa ficar vazia para cantar. Tem mulher esperando perder a vergonha para fazer alguma coisa de que gosta.
E tem mulher esperando a vida inteira.
Minha filha, vamos conversar?
O dia em que cantei alto na rua e uma mulher sorriu para mim
Outro dia, eu estava cantando alto na rua. Alto mesmo, viu? Não era aquela cantadinha discreta de quem ainda está preocupada com a opinião pública. Eu estava vivendo meu momento de estrela internacional. Só faltava o contrato com a gravadora e alguém avisar que o show tinha começado.
Uma mulher me viu e sorriu.
Não sei o que passou pela cabeça dela. Talvez tenha achado engraçado, talvez tenha gostado de me ver tão à vontade ou talvez simplesmente tenha sorrido porque viu uma pessoa feliz. Não tenho como saber.
Mas aquela cena me fez pensar em uma coisa: será que a gente está perdendo a capacidade de aproveitar os pequenos momentos porque está ocupada demais tentando parecer normal?
Olha que loucura! Uma mulher cantando na rua virou quase um acontecimento. E eu nem estava distribuindo panfletos, fazendo uma performance artística ou tentando viralizar nas redes sociais. Eu só estava cantando!
Talvez desafinada. Talvez fora do tom. Talvez precisando de uma conversa séria com um professor de música. Mas estava feliz.
E, sinceramente, entre cantar desafinada e passar mais um dia inteiro me comportando como se a vida fosse uma entrevista de emprego, eu já sei qual das duas opções me interessa mais.
A gente não precisa transformar todos os dias em dias extraordinários. Mas precisa parar de desperdiçar os pequenos momentos extraordinários que cabem dentro de um dia comum.
Em que momento começamos a ter vergonha de ser felizes?
Quando somos crianças, a gente dança sem saber dançar, canta sem saber cantar, inventa histórias absurdas e faz caras e bocas diante do espelho. Uma caixa de papelão pode virar uma nave espacial. Uma toalha pode virar uma capa de super-heroína. E ninguém precisa apresentar um projeto de viabilidade econômica para justificar a brincadeira.
Aí crescemos.
Aprendemos a nos comportar, a falar baixo, a não chamar atenção, a não fazer feio. Aprendemos que precisamos ser boas alunas, boas profissionais, boas mães, boas esposas, boas filhas. Precisamos ter postura, elegância, maturidade e, se possível, uma pele viçosa mesmo depois de dormir quatro horas.
De repente, até a diversão começa a passar por uma avaliação de desempenho.
Você não dança porque não sabe dançar.
Não canta porque desafina.
Não começa uma atividade nova porque tem medo de ser a pior da turma.
Não usa aquela roupa porque alguém pode achar exagerada.
Não demonstra entusiasmo porque, aparentemente, ser uma pessoa muito feliz também pode comprometer a nossa reputação.
Minha filha, quem foi que estabeleceu que a vida adulta precisa ser uma reunião de condomínio com duração indeterminada?
A mulher adulta aprende a se comportar tão bem que, às vezes, desaprende a se divertir.
E o problema não é amadurecer. É confundir maturidade com uma proibição permanente de brincar.
O perigo de querer parecer normal o tempo inteiro
Existe uma diferença enorme entre ter consciência do outro e viver refém da opinião alheia.
Não estou dizendo que precisamos sair por aí incomodando as pessoas, desrespeitando espaços ou fazendo qualquer coisa sem considerar as consequências. Convivência importa, limites importam e bom senso continua sendo uma invenção bastante útil.
Estou falando de outra coisa.
Estou falando de deixar de fazer algo inocente, divertido e importante para você porque alguém pode olhar e pensar que é ridículo.
Percebe a diferença?
Você quer dançar, mas imagina o que vão pensar. Quer cantar, mas tem medo de alguém ouvir. Quer aprender a patinar, mas fica constrangida com a possibilidade de cair. Quer fazer uma aula de dança, mas já se imagina sendo a única pessoa desengonçada da turma.
E assim, antes mesmo de experimentar, você já se reprovou.
Pior: você faz isso usando como justificativa a opinião de pessoas que talvez nem estejam prestando atenção em você.
A mulher que passou por você na rua provavelmente estava pensando na própria vida. A pessoa que cruzou com você no mercado talvez estivesse tentando lembrar se ainda tinha ovos na geladeira. E aquela desconhecida que você imagina julgando sua roupa pode estar preocupada com uma mensagem que não recebeu.
A verdade é que quase todo mundo está ocupado demais tentando administrar as próprias inseguranças.
E nós, enquanto isso, deixamos de viver.
Não entregue a pessoas que você nem conhece o poder de decidir quais alegrias você pode experimentar.
Ser ridícula sem plateia é uma forma de liberdade
Sabe o que eu acho bonito? Uma mulher que consegue se divertir sem precisar ser admirada.
Ela dança sem precisar ter talento. Canta sem precisar de afinação. Experimenta uma atividade nova sem a obrigação de se tornar excelente. Ri alto quando acha graça. Faz uma brincadeira boba porque teve vontade.
Ela não precisa transformar tudo em conteúdo, nem publicar cada momento para provar que está aproveitando a vida.
Ela simplesmente aproveita.
E isso é muito diferente de fazer algo para chamar atenção. É fazer porque aquilo lhe dá prazer, mesmo que ninguém veja, ninguém elogie e ninguém dê um único coraçãozinho na internet.
Talvez seja justamente aí que esteja uma das liberdades mais gostosas da vida adulta: descobrir que você não precisa ser admirável o tempo inteiro.
Você pode ser desajeitada.
Pode ser iniciante.
Pode errar o passo.
Pode fazer alguma coisa muito mal e ainda assim se divertir horrores.
Aliás, vou contar uma coisa que talvez você precise ouvir: você não precisa ter talento para merecer o prazer de fazer alguma coisa.
Não precisa ser uma grande dançarina para dançar. Não precisa cantar como uma cantora profissional para cantar. Não precisa produzir uma peça de cerâmica digna de uma exposição para ter uma tarde gostosa trabalhando com barro.
Nem todo prazer precisa virar competência.
Nem todo hobby precisa virar negócio.
Nem toda experiência precisa produzir um resultado que possa ser apresentado em uma reunião.
Às vezes, a única coisa que você precisa produzir é uma boa lembrança.
E olha que maravilha: não existe prova final!
Coloque uma música e faça o favor de passar vergonha
Vou propor um experimento.
Hoje, quando você estiver em casa, coloque uma música de que gosta. Pode ser aquela que faz você lembrar da adolescência, aquela que sabe cantar inteira ou aquela cuja letra você inventa quando não conhece a música direito.
Aumente o volume dentro do razoável, respeitando os vizinhos que não participaram voluntariamente desse projeto.
E dance.
Não precisa saber os passos. Não precisa assistir a tutorial. Não precisa procurar no Google qual modalidade combina com a sua faixa etária.
Mexa o corpo como der vontade.
Se errar, invente outro passo.
Se ficar ridícula, continue.
Se começar a rir de si mesma, melhor ainda.
E, se você preferir cantar, cante. Se quiser pintar, pinte. Se tiver vontade de aprender a andar de patins, procure uma aula segura para iniciantes. Se quiser experimentar alguma atividade que sempre achou interessante, permita-se começar sem a exigência de ser boa logo de cara.
A proposta não é transformar isso em mais uma obrigação de autocuidado para você colocar na agenda.
Pelo amor de Deus, a gente não precisa de uma planilha para organizar a espontaneidade!
A proposta é lembrar que o prazer também merece espaço na nossa vida. Que brincar não é um privilégio exclusivo das crianças. Que a gente pode fazer coisas simplesmente porque são gostosas, divertidas ou curiosas.
E que, em alguns dias, a melhor coisa que podemos fazer por nós mesmas é parar de nos fiscalizar por cinco minutos.
Não é preciso dançar para resolver um problema, elaborar uma emoção ou descobrir uma grande lição. Às vezes, você só quer dançar.
E tudo bem.
A felicidade não precisa esperar a vida ficar perfeita
A gente tem uma mania perigosa de adiar a felicidade.
Vamos aproveitar quando as crianças crescerem. Quando o trabalho melhorar. Quando o corpo mudar. Quando tivermos mais dinheiro. Quando a casa estiver organizada. Quando a rotina estiver menos corrida.
Quando, quando, quando…
E a vida vai acontecendo nesse intervalo.
Não estou dizendo que os problemas não importam ou que precisamos fingir que tudo está bem. Existem dores reais, fases difíceis e dias em que levantar da cama já exige um esforço enorme. Ninguém precisa se obrigar a estar alegre o tempo inteiro.
Mas também não precisamos esperar que todos os problemas desapareçam para reconhecer os momentos bons que ainda cabem na nossa realidade.
Pode ser um café tomado em silêncio.
Uma música cantada no caminho de casa.
Uma gargalhada com uma amiga.
Uma dança desengonçada na sala.
Um passeio sem pressa.
Uma atividade nova que você experimentou sem saber se gostaria.
São momentos pequenos, sim. E talvez justamente por isso sejam tão fáceis de deixar passar.
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