Eu já fui a favor do aborto.
Pronto. Pode respirar, ajeitar a cadeira e continuar lendo. Hahaha!
Eu sei que, dependendo de quem está do outro lado da tela, essa primeira frase já é suficiente para despertar uma vontade imensa de descobrir se eu ainda tenho salvação. Calma, gente! A conversa está só começando.
Hoje sou católica, não sou a favor do aborto e tenho convicções muito diferentes das que tinha naquela época. Mas sabe o que eu acho interessante nisso tudo? Eu não tenho vergonha de contar que mudei de opinião.
A Ianuska de antes não enxergava as coisas como a Ianuska de hoje. Minha conversão ao catolicismo mudou profundamente a minha maneira de compreender a vida. Fui me aproximando de Jesus e Maria, buscando uma relação mais íntima com a minha fé, e algumas certezas que eu tinha simplesmente deixaram de fazer sentido para mim.
Acontece, né? A gente cresce, vive, aprende, muda. Ou pelo menos deveria. Imagina chegar aos 80 anos defendendo as mesmas opiniões que tinha aos 20 só porque admitir uma mudança parece derrota. Ninguém merece!
Mas existe uma coisa que eu não abandonei nessa mudança: a minha capacidade de pensar, questionar e olhar para as situações além da primeira resposta que aparece.
E é por isso que quero conversar sobre aborto.
Não para convencer você a pensar como eu. Até porque, se a gente precisasse concordar em tudo para conversar, o mundo seria um lugar silencioso demais. E convenhamos, mulher reunida em silêncio por muito tempo é praticamente um evento histórico. Hahaha!
Quero conversar porque tem uma coisa que me incomoda muito: a facilidade com que falamos sobre a vida de uma mulher sem fazer a menor ideia do que ela está vivendo.
Na teoria, todo mundo sabe exatamente o que faria.
Você já reparou como é fácil decidir o que outra pessoa deveria fazer quando a situação não acontece com a gente?
A gente assiste a uma notícia, lê um relato, vê uma discussão nas redes sociais e pronto. Em cinco minutos, temos uma opinião, três argumentos e, se bobear, já estamos distribuindo sentença.
Na vida real, porém, as coisas não vêm com legenda explicativa.
Não aparece um aviso dizendo tudo o que aquela pessoa viveu, o que aconteceu antes, o que ela está sentindo, quais são seus medos ou o que vai enfrentar depois. A gente recebe um pedacinho da história e, com uma confiança admirável, acha que já entendeu o enredo inteiro.
Eu faço parte dessa humanidade também, viu? Não estou escrevendo daqui de um pedestal, com uma auréola perfeitamente posicionada sobre a cabeça. Tenho minhas opiniões, minhas convicções e meus dias de teimosia. A diferença é que hoje tento prestar mais atenção quando percebo que estou falando com muita certeza sobre uma vida que não é a minha.
E, quando o assunto é aborto, acho que essa atenção faz ainda mais falta.
Eu não sou a favor do aborto. E não vou fingir que sou.
Minha fé católica me levou a compreender o aborto como algo moralmente errado. Essa é a minha convicção, e não vejo motivo para escondê-la.
Mas também não acho que precise fingir que todas as mulheres feministas pensam igual, que todas as mulheres católicas têm a mesma história ou que toda situação pode ser resolvida com uma frase pronta.
Aliás, já conversamos sobre isso no artigo Feminista e católica: quem disse que eu preciso escolher um lado?.
Se você ainda não leu, depois passa lá. Porque ser uma mulher de fé não significa que eu tenha deixado de pensar. E ter minhas próprias convicções não significa que eu precise transformar toda conversa numa disputa para descobrir quem está mais certa.
Agora, tem uma situação em particular que me faz pensar muito sobre os limites das nossas opiniões: uma gravidez decorrente de estupro.
E eu queria que a gente conversasse sobre isso sem fingir que é um assunto simples.
E se essa mulher fosse alguém que você ama?
Imagine que uma mulher que você ama tenha sido vítima de violência sexual e descubra que está grávida.
Pode ser sua filha, sua irmã, sua amiga. Alguém cuja voz você reconheceria em qualquer lugar, que você conhece desde antes de tudo acontecer.
O que você faria?
Eu não vou responder por você. Mas gostaria que, antes de pensar na resposta, você imaginasse essa mulher sentada na sua frente.
Ela não é uma personagem de debate. Não é uma notícia que você vai comentar e esquecer na manhã seguinte. É uma pessoa tentando entender o que aconteceu com ela e o que fazer diante de uma situação que jamais deveria ter enfrentado.
Seu corpo foi invadido. Sua intimidade foi violada. E agora ela precisa lidar também com uma gravidez decorrente daquela violência.
É nesse momento que eu me pergunto: o que essa mulher precisa de mim?
Precisa que eu esconda aquilo em que acredito? Não.
Precisa que eu minta para parecer compreensiva? Também não.
Mas será que precisa que eu chegue com todas as minhas convicções prontas, explique o que ela deve fazer e ainda espere que ela agradeça pela orientação?
Aí já é demais, né?
Eu não sou a favor do aborto. Mas defendo que essa mulher tenha liberdade para decidir diante de uma situação tão íntima e dolorosa.
Sei que essa posição pode provocar questionamentos, inclusive entre pessoas que compartilham da minha fé. Não estou dizendo que ela representa a doutrina oficial da Igreja Católica. Estou falando da minha posição pessoal e da maneira como procuro conciliar minhas convicções com o respeito à liberdade de outra mulher.
Porque existe uma diferença entre dizer o que eu acredito e achar que tenho o direito de decidir como outra pessoa deve viver uma situação que eu não estou vivendo.
E tem uma frase que resume muito do que sinto quando penso nisso:
Eu não quero invadir novamente essa mulher com as minhas convicções, depois que alguém já invadiu sua intimidade pela violência.
Pensa nisso por um instante.
Eu posso conversar com ela sobre a minha fé, se ela quiser me ouvir. Posso explicar o que acredito, oferecer apoio, estar presente. Posso até discordar de uma decisão.
Mas não quero usar a minha crença como desculpa para deixar de enxergar a pessoa que está na minha frente.
Para mim, essa diferença importa muito.
Eu também já perguntei a Deus por quê.
Depois de um acidente, perdi espontaneamente o meu bebê.
Não foi uma escolha. Eu não queria aquela perda. Ela aconteceu, e o que veio depois foi um período muito doloroso, física e emocionalmente.
Passei por curetagem, tive uma hemorragia e precisei lidar com tudo o que aquela experiência deixou em mim.
Tem coisas que a gente conta em poucas linhas, mas que não cabem de verdade nessas linhas. A perda de uma gestação é uma delas.
O corpo passa pelo que precisa passar, os dias continuam, as pessoas voltam às suas rotinas. Só que, por dentro, nem sempre as coisas acompanham o mesmo ritmo.
É como um sangramento que demora a parar. Você acha que está melhorando, mas ainda existe uma dor ali, uma marca que precisa de tempo para cicatrizar.
Não quero aprofundar essa história agora porque ela merece um artigo próprio. E eu quero contar tudo com o cuidado que essa parte da minha vida merece.
Mas existe algo que posso compartilhar aqui.
Eu também já olhei para o que estava acontecendo comigo e perguntei a Deus: por quê?
Por que isso aconteceu? Por que comigo? Por que dessa maneira?
Não acho que exista uma mulher que precise ter vergonha de fazer perguntas difíceis a Deus. Muito menos de admitir que está sofrendo, que não entende, que está com raiva ou que não sabe como continuar.
A minha fé foi fundamental para que eu atravessasse aquele período. E, ao longo da minha caminhada, uma pergunta foi ganhando outro sentido para mim. Em vez de permanecer apenas no “por quê?”, comecei a pensar no “por quem?”.
Essa mudança faz parte da minha história, da minha conversão e da missão que acredito ter recebido de Deus.
Mas presta atenção numa coisa: essa foi a minha experiência. Não é uma fórmula que eu possa entregar a outra mulher e dizer: faça assim que vai dar certo.
A fé me ajudou. Isso não significa que eu possa determinar como outra pessoa deve encontrar a própria força, nem que eu saiba explicar o motivo de tudo o que acontece.
E muito menos significa que eu tenha uma resposta para a mulher que engravidou depois de um estupro.
Mas, e se ela perguntar por que Deus permitiu isso?
Essa pergunta é muito delicada para mim.
Porque eu acredito em Deus. Acredito na minha fé, na minha relação com Jesus e Maria e na importância que tudo isso tem na minha vida.
Mas não vou fingir que sei responder por Deus a uma mulher que sofreu uma violência tão profunda.
Como eu poderia olhar para ela e explicar por que aquilo aconteceu? De onde eu tiraria essa resposta?
E se ela estiver com raiva de Deus? E se não conseguir rezar? E se não quiser ouvir uma única palavra religiosa naquele momento?
Eu vou chegar com um discurso pronto porque acredito que a fé é importante para mim?
Não. Pelo menos, não quero ser essa pessoa.
Sei que posso compartilhar aquilo em que acredito. Posso contar como a minha fé me sustentou quando passei por uma dor. Posso estar ao lado de alguém e oferecer a minha presença.
Mas a pergunta daquela mulher, o que ela sente e a maneira como ela se relaciona com Deus pertencem à história dela.
Não à minha.
Eu não quero usar a minha experiência para explicar o sofrimento alheio. Não quero olhar para uma mulher que está tentando entender a própria vida e dizer que sei o que Deus quer dela.
Afinal, uma coisa é compartilhar o que a fé fez por mim. Outra, completamente diferente, é presumir que tenho a resposta para a vida de todo mundo.
E olha que seria muito prático, viu? Eu resolvia a minha vida, a sua, a da vizinha e ainda sobrava tempo para colocar roupa na máquina. Mas, infelizmente, não recebi esse departamento no céu. Hahaha!
Brincadeiras à parte, é aqui que preciso ter humildade.
Eu acredito que Jesus é o juiz. Então, preciso tomar cuidado para não agir como se tivesse recebido uma procuração para julgar a consciência de todo mundo.
Minha fé mudou a minha vida. Não me tornou dona da vida alheia.
Eu não escrevi este artigo para dizer que deixei de acreditar naquilo que a minha fé me ensina. Também não estou tentando fazer parecer que todas as escolhas são iguais ou que não existem questões morais importantes nessa conversa.
Escrevi porque não quero que a minha convicção seja uma desculpa para tratar outra mulher sem humanidade.
Posso considerar uma decisão errada sem achar que conheço a pessoa inteira que está por trás dela.
Posso discordar de alguém sem transformar essa pessoa numa inimiga.
Posso acreditar que o aborto é pecado sem presumir que sei tudo o que aconteceu na vida de uma mulher, o que ela enfrentou, quais foram suas possibilidades ou como ela chegou àquela decisão.
E posso ser católica sem achar que tenho respostas para todas as perguntas que a vida apresenta.
Ainda bem, porque eu já tenho bastante trabalho tentando responder às minhas próprias perguntas!
Minha conversão me transformou. Mudou a maneira como enxergo a vida, como compreendo minhas responsabilidades e como procuro me relacionar com as pessoas.
Mas ela não me deu acesso à história inteira de ninguém.
E não quero usar o nome de Deus para encerrar uma conversa que talvez outra pessoa ainda precise ter com Ele.
Eu só queria que a gente escutasse um pouco mais.
Sabe o que me incomoda nas discussões sobre aborto?
É que, às vezes, parece que estamos tão ocupados tentando provar que temos razão que esquecemos de olhar para as mulheres envolvidas nessas histórias.
A mulher que perdeu uma gestação. A mulher que engravidou depois de uma violência. A mulher que está tentando entender o que acredita. A mulher que mudou de opinião. A mulher que não sabe o que fazer.
Elas não são todas iguais. Não viveram as mesmas coisas, não têm as mesmas convicções e não vão encontrar as mesmas respostas.
Eu sou uma dessas mulheres. Já pensei de uma maneira, hoje penso de outra e continuo aprendendo a lidar com as perguntas que a vida me apresenta.
Não espero que você concorde comigo em tudo. Sério. A gente pode discordar e continuar conversando. Não precisa terminar toda discussão com uma vencedora, uma derrotada e um grupo de pessoas bloqueadas nas redes sociais.
Mas gostaria que a gente tivesse mais cuidado antes de transformar a vida de alguém num exemplo para defender nossas próprias opiniões.
Porque, quando uma mulher está diante de uma situação que pode mudar a vida inteira dela, a última coisa de que precisa é ser tratada como um tema de debate por pessoas que nunca precisarão enfrentar aquela mesma situação.
Eu continuo sendo católica. Continuo não sendo a favor do aborto. Continuo acreditando que a vida é sagrada.
E continuo acreditando que não sou Deus.
Talvez eu nunca tenha todas as respostas. Talvez você também não tenha.
Mas podemos começar por alguma coisa: escutar antes de presumir, conversar antes de condenar e reconhecer que a história de uma mulher é muito maior do que aquilo que conseguimos enxergar de fora.
No fim das contas, eu não quero abandonar minhas convicções para acolher alguém.
Quero aprender a acolher sem esquecer quem sou.
Porque, entre o surto e a sensatez, a gente conversa. E algumas conversas precisam começar justamente quando a gente percebe que não sabe tudo.
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