Sobre amor-próprio, relacionamentos e a mania de achar que precisamos estar com a vida toda resolvida antes de sermos felizes com alguém.

Vamos combinar uma coisa?

A vida amorosa da mulher já tem complicação suficiente. Tem mensagem visualizada sem resposta, expectativa que ninguém combinou, gente que diz que quer compromisso mas age como se estivesse preenchendo um formulário de reclamação, e aquela nossa capacidade quase olímpica de analisar um simples “oi” durante três dias.

No meio disso tudo, ainda aparece uma frase para a gente administrar:

“Você precisa se amar primeiro para depois amar alguém.”

Pronto. Mais uma tarefa na lista!

Além de trabalhar, cuidar da casa, lembrar o horário da escola, pagar as contas, tentar beber dois litros de água e descobrir onde foi parar aquele documento que estava aqui agorinha, agora também precisamos atingir o nível máximo de amor-próprio antes de receber autorização para viver um romance?

Calma, minha gente!

A ideia por trás dessa frase faz sentido. Afinal, quando não reconhecemos o nosso valor, podemos acabar aceitando qualquer migalha afetiva e ainda agradecer pelo banquete.

Mas será que precisamos estar completamente resolvidas, seguras, confiantes e apaixonadas por nós mesmas para amar alguém?

E quem é que vai entregar esse certificado de mulher emocionalmente preparada? Existe prova? Redação? Taxa de inscrição?

Porque, se depender de estar com tudo em ordem, tem gente que vai passar a vida inteira solteira esperando a autoestima sair do forno.

E não é bem assim que a história funciona.

O problema não é amar alguém. É esquecer de você no caminho.

Sabe aquela mulher que entra em um relacionamento e, de repente, parece que mudou de endereço emocional?

Antes, ela tinha suas músicas, seus amigos, seus planos, suas opiniões e seus programas preferidos. Depois, começa a perguntar o que o outro quer fazer, onde ele quer ir, o que ele gosta de comer e qual série os dois vão assistir.

Até aí, tudo certo. Relacionamento também é aprender a compartilhar a vida.

O problema é quando ela já não sabe responder ao que ela quer.

O restaurante escolhido é sempre o dele. O filme é sempre o dele. Os planos dela ficam para depois, os amigos vão ficando distantes e aquele projeto que a animava tanto passa a ocupar um lugarzinho na gaveta.

E, quando percebe, está tão empenhada em fazer a relação dar certo que já nem sabe direito como anda a própria vida.

Amiga, você começou um namoro ou foi contratada para administrar a felicidade de outra pessoa?

É claro que amar exige concessões. Ninguém constrói uma vida a dois fazendo exclusivamente o que tem vontade, ou o casamento viraria uma reunião interminável para decidir quem está certo.

Mas existe uma diferença entre ceder de vez em quando e transformar a própria personalidade em um serviço de assinatura.

Você pode mudar de ideia, negociar planos e aprender com quem ama. Só não precisa deixar de gostar das coisas que fazem você ser você.

Porque o objetivo de um relacionamento não deveria ser encontrar alguém para completar uma mulher que está faltando pedaços.

Deveria ser encontrar alguém com quem compartilhar uma vida que já está acontecendo.

Com seus sonhos, suas manias, suas opiniões e, sim, aquela sua preferência questionável por assistir ao mesmo filme pela décima segunda vez.

Mas e se eu ainda não gostar tanto assim de mim?

Vamos falar a verdade?

Nem todo dia a gente acorda se sentindo uma obra-prima da natureza.

Tem dia em que você se olha no espelho e pensa: “Mulher bonita, inteligente, maravilhosa!”

Em outros, experimenta quatro roupas, reclama do cabelo, culpa a iluminação do banheiro e termina convencida de que precisa trocar o guarda-roupa inteiro.

A autoestima também tem seus dias de folga. E, aparentemente, não avisa quando vai tirar férias.

Brincadeiras à parte, aprender a gostar de si mesma pode ser um processo longo. A forma como crescemos, as experiências que vivemos, as comparações que fazemos e a maneira como somos tratadas podem influenciar a relação que construímos conosco.

Talvez você ainda tenha inseguranças. Talvez tenha dificuldade de reconhecer suas qualidades. Talvez esteja aprendendo a dizer não sem escrever uma dissertação de justificativas para não magoar ninguém.

Isso não significa que você não possa viver um amor bonito.

Você não precisa estar 100% satisfeita com seu corpo, sua carreira, sua rotina e suas escolhas para ser digna de carinho.

Aliás, se fosse necessário gostar de absolutamente tudo em nós mesmas antes de começar qualquer relacionamento, quem é que estaria namorando?

O amor-próprio não é uma prova eliminatória. Não precisamos atingir uma nota mínima de autoestima para merecer companhia.

Podemos estar aprendendo a nos valorizar e, ao mesmo tempo, conhecer alguém que nos trate com respeito.

Podemos ter inseguranças e construir uma relação saudável.

Podemos, inclusive, aprender coisas sobre nós mesmas dentro de um relacionamento.

O importante é não transformar a outra pessoa em responsável exclusiva pela nossa felicidade, nem permitir que o desejo de ser amada nos convença a aceitar situações que nos fazem mal.

Você não precisa se amar perfeitamente para amar alguém. Mas precisa lembrar que você também faz parte dessa história de amor.

Amor-próprio não é achar que você é a última bolacha do pacote

Aliás, vamos tirar um pouco de pressão desse tal amor-próprio?

Porque, dependendo de como a conversa é apresentada, parece que amar a si mesma significa acordar todos os dias plena, confiante, hidratada, com a alimentação equilibrada e uma certeza inabalável de que ninguém neste planeta chega aos seus pés.

Olha, se essa mulher existir, gostaria de conversar com ela. Principalmente para descobrir como organiza a agenda.

Amor-próprio não é se considerar superior aos outros. Não é nunca sentir ciúme, insegurança ou medo. Também não significa ignorar os próprios defeitos e sair por aí distribuindo opiniões como se você fosse a última autoridade sobre o funcionamento do universo.

A gente tem defeitos, minha amiga. Alguns, inclusive, bastante criativos.

Às vezes somos impacientes, teimosas, orgulhosas ou péssimas em admitir que erramos. Podemos falar quando deveríamos ouvir, interpretar uma situação de maneira equivocada e precisar pedir desculpas.

E tudo isso pode ser reconhecido sem que a gente conclua que é uma pessoa horrível.

Amar a si mesma também é conseguir olhar para as próprias falhas sem iniciar uma campanha de difamação contra a própria existência.

Você pode querer melhorar sem se odiar no processo.

Pode reconhecer que errou sem se tratar como um caso perdido.

Pode olhar para uma fotografia e não gostar do ângulo sem transformar isso em uma investigação sobre todos os seus defeitos físicos.

E pode passar por uma fase difícil sem concluir que fracassou como mulher.

O amor-próprio não exige que você se ache maravilhosa em todos os momentos. Ele pede algo bem mais possível: que você não deixe de se respeitar nos momentos em que não está se sentindo maravilhosa.

Não entregue ao outro a função de provar que você tem valor

Agora chegamos a um ponto importante.

Gostar de ser elogiada é ótimo. Receber carinho é uma delícia. Ser desejada por quem desejamos também tem seu valor.

Não precisamos fingir que somos seres iluminados, completamente indiferentes à opinião de quem amamos.

O problema começa quando a nossa paz depende exclusivamente da confirmação do outro.

Se ele elogia, o dia fica lindo. Se está mais quieto, começamos a investigar se fizemos alguma coisa errada. Se demora a responder, nossa cabeça já está produzindo uma série de suspense com cinco temporadas e final inconclusivo.

E, quando percebemos, estamos tentando interpretar cada comportamento alheio como um boletim sobre o nosso próprio valor.

Será que sou bonita o suficiente? Interessante o suficiente? Será que ele ainda me ama? Será que existe alguém melhor?

Minha amiga, sua cabeça não precisa transformar cada silêncio em uma reunião extraordinária.

É claro que a comunicação importa. Se existe um problema na relação, precisamos conversar. Se alguém está se afastando, podemos buscar clareza. Não se trata de ignorar sinais ou aceitar qualquer comportamento em nome da autoconfiança.

Trata-se de não fazer da aprovação de outra pessoa o único espelho em que conseguimos reconhecer quem somos.

Uma relação saudável pode oferecer segurança, carinho e reafirmação. Mas o outro não deveria precisar convencer você, todos os dias, de que merece ser tratada com dignidade.

Você não precisa disputar sua própria vaga no coração de alguém.

E, quando uma relação faz você se sentir constantemente inferior, insuficiente ou obrigada a provar que merece respeito, talvez a pergunta não seja como se tornar uma mulher melhor para manter aquela pessoa.

Talvez seja se essa relação está sendo boa para você.

Porque amor não é um processo seletivo em que você precisa superar outras candidatas para continuar sendo escolhida.

E se o amor-próprio também for aprendido dentro de um relacionamento?

Aqui vai uma pequena provocação.

Passamos tanto tempo repetindo que precisamos nos amar primeiro que, às vezes, esquecemos que também aprendemos sobre amor nas relações que construímos.

Uma amizade respeitosa pode nos mostrar que podemos ser ouvidas sem precisar disputar espaço.

Um relacionamento saudável pode nos ensinar que discordar não significa perder o amor do outro.

Uma pessoa que respeita nossos limites pode nos ajudar a perceber que dizer não não precisa ser o começo de uma guerra.

E alguém que nos oferece carinho sem exigir que estejamos sempre bem pode nos ajudar a compreender que não precisamos apresentar uma versão impecável de nós mesmas para sermos amadas.

Isso não significa que outra pessoa vai resolver nossas inseguranças ou que precisamos de um relacionamento para aprender a gostar de nós.

Significa que não precisamos tratar o amor como se fosse uma recompensa reservada às mulheres que já fizeram todo o trabalho emocional sozinhas.

A vida acontece nos encontros.

A gente aprende, erra, conversa, muda de ideia, revê comportamentos e descobre coisas sobre si mesma que talvez nunca tivesse percebido sem a convivência com outras pessoas.

O importante é que esse processo aconteça com respeito, reciprocidade e espaço para que os dois continuem sendo indivíduos.

Porque um relacionamento pode ajudar você a crescer, mas não deveria exigir que você encolhesse.

Então, como vou amar alguém se ainda estou aprendendo a me amar?

Talvez você vá amar aprendendo.

Vai descobrir como demonstrar afeto sem se anular. Como dividir a vida sem entregar todas as decisões. Como ouvir a pessoa amada sem ignorar aquilo que você mesma sente.

Vai aprender que algumas diferenças podem ser negociadas, outras precisam ser respeitadas e algumas incompatibilidades não desaparecem só porque existe amor.

Vai descobrir que amar não significa concordar com tudo. Que pedir desculpas não diminui ninguém. Que estabelecer limites não é uma declaração de guerra.

E, principalmente, que você não precisa abandonar a si mesma para provar que está comprometida com outra pessoa.

Talvez, durante esse caminho, você perceba que precisa cuidar melhor de algumas inseguranças. Talvez descubra que tem comportamentos que deseja mudar. Talvez precise aprender a conversar sobre suas necessidades em vez de esperar que o outro adivinhe tudo.

Sim, minha amiga, infelizmente ainda não inventaram o relacionamento em que a outra pessoa lê pensamentos. Estamos trabalhando com as ferramentas disponíveis.

Mas nada disso exige que você espere até se tornar uma versão perfeita de si mesma para viver uma relação.

Você pode começar agora, do jeito que está, desde que esteja disposta a se conhecer, respeitar o outro e não transformar o amor em uma justificativa para se abandonar.

O amor-próprio não precisa estar pronto para começar.

Ele pode crescer com você.

Pode aparecer naquela vez em que você diz o que sente em vez de fingir que não se importa. Na decisão de retomar um sonho que havia deixado de lado. Na coragem de reconhecer um erro. Na escolha de não permanecer onde você é constantemente desrespeitada.

Pode aparecer também em algo muito simples: lembrar que sua vida não se resume ao relacionamento que você tem ou gostaria de ter.

Você continua sendo uma mulher com interesses, desejos, amizades, planos, opiniões e uma história própria.

E essa mulher merece continuar existindo dentro de qualquer relação que escolher construir.

No fim das contas, não se abandone para amar alguém

Talvez a pergunta não seja exatamente: “Se eu não me amar primeiro, como é que vou amar alguém?”

Talvez seja: “Enquanto amo alguém, consigo continuar aprendendo a cuidar de mim?”

Porque você pode encontrar o amor da sua vida antes de resolver todas as suas inseguranças. Pode conhecer alguém maravilhoso enquanto ainda está descobrindo o que deseja fazer profissionalmente. Pode construir uma família enquanto aprende a estabelecer limites e a respeitar suas próprias necessidades.

A vida não espera que a gente esteja com tudo organizado para acontecer.

Ainda bem, porque, se dependesse da nossa organização, alguns romances só começariam depois da próxima segunda-feira. E a próxima segunda-feira vive sendo adiada.

Você não precisa escolher entre amar a si mesma e amar outra pessoa.

Pode aprender a fazer as duas coisas.

Pode desejar companhia sem considerar a própria vida incompleta. Pode querer um relacionamento sem transformar o estado civil em uma medida de sucesso. Pode amar alguém profundamente e continuar cultivando aquilo que faz você se sentir viva.

E, se ainda está aprendendo a reconhecer o próprio valor, não transforme isso em mais um motivo para se cobrar.

Você não é um projeto que precisa ser concluído antes de ser amado.

É uma pessoa, em constante construção, que pode viver coisas bonitas enquanto aprende.

Talvez o segredo não seja se amar perfeitamente antes de amar alguém. Talvez seja aprender a não se abandonar enquanto ama.

E isso, minha amiga, já é uma jornada e tanto.

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